“Há a ideia errada de que os livros são feitos em dias ou semanas. ” – Entrevista ao CEO de uma Editora

Apesar de o indicar em diversas publicações alusivas à escrita e mercado editorial, acredito que nem sempre tenham a perceção da relação que tenho e gosto de ter com a minha editora. Neste cenário, um desses nomes é o Luís Rodrigues, Editor Executivo da Cordel d´Prata e que tenho vindo a conhecer desde 2018.

Sempre amei escrever, mas a paixão pelo lado Editorial começou a fascinar-me há coisa de dois anos e não poderia estar mais grato pelas conversas que tive com o meu Editor. Conversas estas não só de entusiasmo e apoio, como momentos de reflexão em que somos levados a pensar o que poderia ser/ficar melhor quer nos meus livros, quer no mercado literário em si.

Confesso que andei com receios de fazer este pedido, mas após ter tudo estruturado, decidi convidar o CEO da Cordel d´Prata para uma entrevista em que me irá contar como é, de facto, trabalhar numa Editora.

Nota: Como devem de imaginar, por questões contratuais e de respeito ao mercado e a autores, é provável que nem sempre seja possível de encontrarem uma resposta completamente detalhada e que importa compreender a figura da Editora nessas mesmas questões.


Olá, Luís. Muito obrigado por teres aceite este convite e teres disponibilizado um bocadinho do teu tempo neste que foi um ano inesperado. Acho que podemos começar por este mesmo ponto: como foi ir trabalhar todos os dias para a Editora, para a “tua” equipa, em 2020?

Luís – Nós iniciamos 2020 com grandes objetivos! Não estou só a falar em termos de publicações que iríamos lançar, mas de ideias e projetos que íamos colocar em prática. Este era o ano em que iria regressar o Speed Writing, íamos realizar uma convenção só para autores, entre outras mil ideias. Depressa tudo isto mudou e até os livros estiveram ameaçados (estão ameaçados). A editora não parou de trabalhar durante o confinamento, mas a forma de desenvolvermos teve que ser repensada. Ficámos em casa ansiosos por regressar aquele que é o nosso espaço coletivo de trabalho. É muito importante uma editora estar junta. A equipa conseguir facilmente partilhar ideias, mostrar ilustrações, relembrar modificações importantes! Existem dezenas de lacunas no mercado que só em conjunto é que conseguimos pensar em soluções e a proximidade ajuda-nos! Quando regressámos o sentimento era misto: designers, editores e comunicação voltam a estar juntos, mas as limitações lá fora (os lançamentos, as apresentações, as livrarias) continuaram a ser um problema. Foi fácil regressarmos porque gostamos imenso disto.  Se existia alguma dúvida sobre o que queríamos ser, este período ajudou-nos a ter saudade deste nosso trabalho! Estamos no caminho certo e continuamos na luta das limitações da pandemia.

A editora não parou de trabalhar durante o confinamento, mas a forma de desenvolvermos teve que ser repensada.

Luís Rodrigues

Estes últimos meses deram-se igualmente pelo realizar da Feira do Livro de Lisboa – um daqueles eventos que, pelos números de casos de COVID-19, rapidamente poderia ser cancelado. Como foi trabalhar para este evento tão concreto, mas que poderia acabar em ilusão?

Luís — Começo por comentar uma decisão nossa que pode não ter sido muito bem vista. A Cordel D’ Prata não esteve presente na Feira do Livro do Porto. Não foi apenas a nossa editora mas dezenas de outras que optaram pela Feira do Livro de Lisboa. As duas feiras, ao contrário dos restantes anos, aconteceram em datas simultâneas. Nitidamente que as duas organizações são bastante diferentes. O impacto da Feira de Lisboa é muito superior, em termos de adesão, atividades, decoração, vendas, lançamentos… Num ano em que os autores não puderam ter apresentações e em que foram privados de imensas atividades, quisemos optar pelo espaço que oferecia mais regalias, mais possibilidades.

O impacto da Feira de Lisboa é muito superior.

Luís Rodrigues

É como dizes, Diogo: trabalhámos intensamente e de forma entusiasmada para a Feira de Lisboa. Era a grande oportunidade de 2020 para acontecer qualquer coisa e tinha que acontecer praticamente tudo. Novidades literárias, apresentar autores, receber pessoas (tão importante). Preparámos tudo antecipadamente como esta organização assim exige, mas sempre com o receio de que a qualquer momento pudesse ser cancelada. Honestamente, só no dia em que o stand foi montado é que tivemos a certeza que a Feira se ia realizar…, até lá tudo podia mudar. Mas o balanço é extremamente positivo. Dentro de um cenário tão pesado conseguirmos dar tantas oportunidades e receber tanta gente.

Como achas que lidaram os autores publicados por vocês com este ano?

Luís – Muitos autores menorizaram esta calamidade mundial. Infelizmente muitos acreditaram que isto passava em dias e era exagero da nossa parte estas limitações. Mas este problema é real e é grave. As livrarias fecharam. A FNAC fechou. Algumas editoras desapareceram. Não era possível apresentar livros porque não havia sitio para os apresentar. Criámos os eventos online, mas não eram suficientes. Os livros tiveram que ficar retidos até termos uma oportunidade como a Feira de Lisboa. Para muitos autores isto não era suficiente, mas foi para o mercado editorial um “luxo” termos este ano estado presentes na Feira. Eu entendo que derivam muitas limitações na divulgação neste ano de 2020, mas é um cenário com muito pouco controlo.

Já diz o ditado quase que popular: gostos literários não se discutem. Como é lidar com o desacordo numa Editora e como se chega a um consenso?

Luís – Nós não discordamos da história depois de dizer “que sim”. A partir do momento que aprovamos o livro, a nossa única missão é corrigir e melhorar. Existe sim uma maior exposição de ideias quando propomos alguma alteração no livro que pode beneficiar a história e que pode tornar o livro mais próximo dos leitores. Por regra, as sugestões da revisão e da equipa editorial são bem recebidas, outras vezes não, porque o autor imaginou o livro de uma determinada maneira e “bloqueia” qualquer modificação. Esta última parte não ajuda muito o livro, mas respeitamos.

O livro é um processo longo. Os autores tomam a iniciativa de nos enviar um original para lermos e quando aprovamos começa uma jornada complexa de trabalho. Digo complexa porque embora seja um trabalho bonito e que vai convergir num resultado final incrível, a verdade é que exige muita concentração. A revisão da obra é dos passos mais importantes na edição de um livro, não queremos que nada seja publicado com erros. É importante que o revisor e o autor estejam e sintonia e que seja dada uma elevada importância às provas de revisão e posteriormente às provas gráficas. Este ultimo passo é o mais divertido porque começamos a ver a forma do livro a ser criada. A escolha da capa, das cores e de todo o material publicitário… É sinal que está quase!

Não consigo imaginar como seja lidar com autores e com o trabalho que eles depositam em algo que, em muitos casos, foi criado durante anos. Desta forma, aquilo que quero perguntar é: quais os maiores desafios ao lidar com autores?

Luís – Quem está a publicar pela primeira vez têm um problema que embora compreensível, é o maior inimigo: a pressa! Há a ideia errada de que os livros são feitos em dias ou semanas. Existem efetivamente empresas que os fazem em pouco tempo, mas aí não podemos encontrar qualidade. Este é o nosso maior desafio: gerir as expetativas e fazer entender que os processos para serem bem-feitos, levam o seu tempo. Nós não temos um só livro em edição quando nos chega uma nova obra. O revisor está terminar outro original. E vai dedicar toda a sua concentração ao projeto atual como ao novo. Isto não há forma de contornar. Temos o exemplo de autores que preferem prescindir da revisão em prol da rapidez e nós não aceitamos isso. Não há lugar para esses trabalhos na nossa editora. Um livro demora meses a ser editado e todos os passos têm que ser mutuamente verificados (pelo autor e pela editora). Só estamos a respeitar a qualidade da obra.

Há a ideia errada de que os livros são feitos em dias ou semanas.

Luís Rodrigues

Posso dizer que assisti a este crescimento vosso. Penso que só me fica bem contar como, quando publiquei o Esquecido (2018), senti que algumas promessas ficaram por cumprir ou com aquele sentimento de “a desejar”. Hoje, isso não poderia estar mais diferente. É algo que me orgulha (de forma genuína), e de perceber concretamente o vosso crescimento quase que a cada livro, a cada ano. Como foi este crescimento? O que aprenderam e como chegaram até onde estão agora desde aqueles meses de 2018?

Luís – Olha, Diogo, eu orgulho-me imenso de termos aprendido tanto em tão pouco tempo. Não é fácil, mas nós temos uma vantagem enorme: publicamos muitos livros e podemos aprender e melhorar os erros logo no livro seguinte. A repetição do processo faz-nos poder corrigir rapidamente os erros dos anteriores. Em 2017, quando iniciámos, éramos apenas apaixonados por livros a aprender a trabalhar. Agora somos uma equipa a criar mais ferramentas para fazer diferente e melhorarmos a experiência do autor. O teu projeto foi um dos exemplos e de muitos autores que voltámos passado dois anos a publicar.

Publicamos muitos livros e podemos aprender e melhorar os erros logo no livro seguinte.

Luís Rodrigues

Aceitem empresas que assumem e dizem “vamos melhorar”, do que aquelas que tornam os anos numa rotina. Em verdade, digo-te que mesmo com tantos anos de aprendizagem, ainda precisamos dela. Não existe nenhuma editora de novos autores a conceder tanto protagonismo aos escritores como nós. Em linguagem de empresa, podemos afirmar que investimos mais do que ganhámos. Nos livros infantis, por exemplo, somos os únicos a investir na criação das ilustrações. Não há qualquer custo extra para ninguém. É uma despesa que assumimos e com extrema qualidade para garantir o melhor sucesso do livro. Quero que daqui a muitos anos a Cordel D’ Prata seja a escolha de centenas de autores que encontram aqui a editora com mais ferramentas para o seu sucesso.

Publicar um livro é dispendioso. Penso que, e sendo completamente honesto, se esquece que não basta em Portugal se ler pouco, como a Editora é uma empresa com pessoas. Pessoas que têm vidas independentes, que têm de receber um salário e de ter boas condições. Com isto, achas possível e exequível saber um bocadinho de quanto custa realmente publicar um livro?

Luís – Nós temos que publicar muito para fazer a empresa crescer. Não é financeiramente viável focarmo-nos num único livro ao longo de dois ou três anos porque as vendas não vão acompanhar. Antes de uma editora existe uma empresa e não o podemos negar. Publicar um livro é financeiramente exigente. Não só pelos custos, mas pela incerteza no retorno.

Tudo isto é variável, mas um livro tem despesas de impressão que podem rondar os 4 € a 5 € por exemplar. Temos que contabilizar o custo da Revisão, do trabalho do Design, do tempo que a própria empresa despende na edição do livro. Quando colocamos um livro no mercado e ele custa 14,00 € é aí que o balanço real acontece: a esse valor retiramos entre 30% a 50% da Comissão da Loja (ficamos com cerca de 7,00 €) tiramos o valor do IVA; tiramos a percentagem de Direitos de Autor (pode rondar 10% ou 15%) retiramos o custo do envio dos livros para as lojas (que é sempre suportado pela editora) e, por fim, retira-se o custo da Impressão. Nos livros infantis temos ainda a despesa (elevada) das ilustrações. Não, as editoras não têm os cofres cheios. A maior parte dos livros no mercado circula em consignação: significa que podem ou não ser vendidos. E quando não são? Os custos mantêm-se.

Publicar um livro é financeiramente exigente. Não só pelos custos, mas pela incerteza no retorno.

Luís Rodrigues

Há autores que não compreendem em plenitude a importância de termos influenceres a publicar livros. A verdade é que da mesma forma que eu sou escritor, também tenho outra profissão e isso em nada inviabiliza a outra. Pelo que, aquilo que quero perguntar é: achas que existem leitores e autores que olham para algumas das celebridades que vocês publicaram e não compreenderam a importância das mesmas?

Luís – Acho que a maior parte dos nossos autores não gosta que a nossa editora publique figuras conhecidas. Mas se hoje um livro de um autor desconhecido consegue estar numa FNAC é por causa dessas apostas em nomes mais comerciais. Sabemos como o mercado está fechado para os novos autores. A distribuição só está a aceitar com garantias de vendas. Há por vezes uma breve oportunidade e não é em grande quantidade, principalmente nos pequenos livreiros. “… de quem? Ele não vai vender não vale a pena” são algumas das respostas que as livrarias nos dão quando apresentamos um autor local.

Uns fazem outros ganhar.

Luís Rodrigues

Quando a nossa editora apresenta nomes sonantes as portas da distribuição abrem-se e conseguimos negociar. Quando estas relações com grandes espaços acontecem, faz com que consigamos apresentar os demais títulos que temos: os tais autores em fase de crescimento. Permite-te conhecer quem está por trás e ficas dentro das grandes redes. É tão importante manter um equilíbrio no catálogo, porque uns fazem outros ganhar.

Quais são os maiores desafios na distribuição? Achas que os autores os compreendem?

Luís – A minha resposta anterior vai muito nesse sentido. A distribuição é o maior problema. Não só das editoras, mas dos autores. Está tudo relacionado. A aposta em títulos sem garantias de venda é muito limitada. As livrarias têm elevada oferta. Não podem dizer que sim a tudo. E hoje em dia sofre-se também um problema elevado de qualidade de escrita. Muitos escrevem por escrever e não permitem correções e isso sente-se depois na aceitação do mercado. As livrarias já questionam a qualidade quando se trata de uma editora de novos autores. Mas é como tudo: há trabalhos muito bons, há livros bons, e há pessoas que quiserem publicar pela vaidade.

As livrarias já questionam a qualidade quando se trata de uma editora de novos autores.

Luís Rodrigues

E que tipo de relação procuram ter com os vossos autores?

Luís – Sobre a relação com os autores queremos transparência. Não se está a prometer o sucesso em meia dúzia de meses. Estamos a garantir que existe um grande trabalho pela frente. Mas nós podemos dizer isto milhares de vezes que nunca ninguém pergunta qual é esse trabalho. Que posso eu fazer para acrescentar ao meu projeto? Como me posso tornar mais útil nesta jornada? Nunca. Está-se constantemente à espera que os resultados apareçam. Nós queremos que o autor esteja informado e que cada vez mais, na nossa editora, tenha ferramentas para utilizarem e poderem ter mais sucesso! Isto é gradual e é preciso empenho.

Temos muitos autores a publicar novamente connosco, é um bom índice. Temos outros que procuram outras soluções e está tudo bem, alguns voltam… , outros desistem de tentar. No mercado fica quem insiste e percebe que editar um livro tem que ser uma parceria entre editora e autor. Nós temos autores que não comparecem numa Feira do Livro, que não querem um lançamento porque não têm publico… , não existe uma página profissional onde eles consigam partilhar o seu livro. Neste tipo de relação nós somos os maus da fita porque, efetivamente, dizemos o que o autor não quer ouvir: “ele precisa de estar mais presente e de trabalhar mais”. Não podemos ter uma sessão numa FNAC e aparecerem 4 pessoas. O autor e a editora ficam comprometidos. Pagam posteriormente os restantes autores. Este é o tipo de abertura e de realidade que transmitimos na mesma medida em que incentivamos a usufruírem do processo correto de editar um livro. De ver as ilustrações a nascerem… , de ver uma história a transformar-se.

Neste tipo de relação nós somos os maus da fita porque, efetivamente, dizemos o que o autor não quer ouvir: “ele precisa de estar mais presente e de trabalhar mais”.

Luís Rodrigues

Um destes elementos que vos caracteriza é a Gala dos Autores. Para quem nos lê, nesta Gala a Editora celebra tudo o que foi publicado nesse ano de uma forma grandiosa e com a entrega de troféus em diversas categorias. É um evento fabuloso e que, a cada edição, saio de lá mais emocionado. Por isso, Luís, como veem a Gala dos Autores e como é criar este evento único?

Luís Rodrigues a entregar o prémio à Melhora Obra 2020 – Foto “Gala de Autores 2020” por Cordel d´Prata

Luís – A Gala dos Autores envolve um trabalho surreal. Enche-nos de orgulho sermos os pioneiros a premiar novos autores. Gastamos imenso dinheiro num evento destes. Tem custos elevados. Obriga a imensa equipa. Mas em cada edição temos a certeza que estamos a elevar para o caminho certo. Pode ainda não ser muito claro, mas este tipo de iniciativas, para os autores, eleva a sua categoria profissional. É uma comunidade onde acabam por conhecer mais autores e serem reconhecidos. Eu adorava estar nomeado para um prémio se fosse autor. Poder estar num palco onde são convidados também outros reconhecidos escritores. Acho que, a longo prazo, a Gala dos Autores será um evento muito querido por todos. Lamentamos que alguns autores nomeados não compareçam …, mas é os tais resultados que falávamos há pouco.

Pode ainda não ser muito claro, mas este tipo de iniciativas, para os autores, eleva a sua categoria profissional.

Luís Rodrigues

Estamos a chegar ao fim, mas antes disso, quero muito perguntar: o que te levou a embarcar no mundo da edição?

Luís – Como tudo na minha vida profissional, quis criar a oportunidade. Quando percebi que só estaria envolvido em cinema quando me tornasse produtor, assim foi com os livros. Só podia publicar e aprovar histórias quando me tornasse editor. Nasce sempre de um produto. E quando também eu tive a minha história pronta e pesquisei sobre as editoras em Portugal, percebi que existiam lacunas nas dos novos autores. E pensei: “eu consigo fazer melhor!” E que viajem esta…

Existem planos ou projetos futuros para a Editora e que abranja os seus autores que possas revelar?

Luís – Muitos. Alguns deles ganham já forma nos primeiros meses de 2021. A pandemia atrasou-nos, mas agora retomamos com força. A missão será sempre a mesma: que os autores encontrem na Cordel D’ Prata a editora com mais ferramentas para eles poderem ter sucesso!


Obrigado novamente, Luís, pelo tempo que dedicaste à entrevista. Espero que tenham gostado de refletir connosco a respeito do mercado edi

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