Porque sofrem de estigma os “novos autores”?

O termo “novos autores” anda na boca dos leitores e bookstagrammers portugueses. As próprias Editoras (nomeadamente as Vanity) adoram usá-lo e chamar a atenção para este buraco gigantesco no mercado literário português. Estes “novos autores” são muitos e, de forma surpreendente, não precisam de ser jovens adolescentes para entrar na categoria. Mas perante tanta ambiguidade no termo e um mercado literário altamente fragmentado, já pararam para pensar em tudo o que estes novos autores sofrem? Sabiam sequer que eles sofrem e estão a sofrer?

Provavelmente estão a perguntar-se onde sofrem e o porquê de isso acontecer. Pois bem, após a minha própria reflexão (incluíndo a de tudo o que um autor sofre) e de ter falado com alguns autores, decidi falar de algo que parece tabu.

es.tig.ma(i)

masculino

5.figurado sinal vergonhoso

6.figurado desonra, labéu

7.figurado perceção negativa associada a certo comportamento, característica, grupo, etc.

Fonte

O que é um “novo” autor?*

Um “novo” autor é (i) um escritor que se está a iniciar no mercado literário; (ii) alguém que já publicou alguns livros mas ainda em quantidade reduzida (qb); (iii) alguém realmente jovem; (iv) alguém que esteja a publicar por meio de Editoras Vanity e não por Editoras Tradicionais.

(*) – A definição aqui apresentada é da minha autoria.

Quais os estigmas?

Portugueses não sabem escrever fantasia

Reprodução de Tânia Dias, autora da saga Broken

A idade

A idade de um autor pode muito bem contribuir para que este sofra na pele diversos “olhares de lado” e, em alguns casos, diversas negações por parte de editores. Isto não acontece propriamente todos os dias ou quando um jovem autor assina contrato com uma Editora, mas antes em eventos literários em que os olhares de soslaio são frequentes.

A experiência

Este ponto consegue estar habilmente ligado ao anterior e surge aqui após a observação caricata que uma vez assisti numa sessão de apresentação. O que aconteceu, perguntam vocês? Pois bem, estava eu a assistir à segunda apresentação de um livro de espionagem, quando um membro do público pôs em causa o trabalho da autora por ela não conseguia ter legitimidade para escrever sobre ficção de espionagem porque: “nunca passou por aquilo”. Sei que a maior parte do público estava a desconsiderar esta observação, mas não deixa de ser triste.

A idade de alguém pode condicionar as vivências de uma pessoa e a forma como lê e interpreta o mundo. Todavia, é importante nunca esquecer que grande parte dos autores, antes, durante e após a conclusão de um manuscrito, fazem pesquisa ativa e procuram melhorar e elevar o seu trabalho. Sei que, infelizmente, nem todos os leitores compreendem isto e acabam por cair no grande erro de julgar um livro só pelo tema.

Os géneros literários

São diversos os autores que me contactaram para indicar que só o facto de escreverem literatura fantástica levou a que se sentissem julgados e a ouvir que “portugueses não sabem escrever fantasia”. Não sei como é que vocês digerem isto, mas a mim “dá-me os ácidos”. Acho um ultraje estes leitores não darem sequer uma oportunidade e fazerem pior do que a julgar um livro pela capa.

O não saber escrever

Este é dos piores e, infelizmente, liga todos os outros. É frequente um novo autor sentir-se como um impostor só pelo facto de não ser olhado da mesma forma que um autor de prestígio. É igualmente comum que um autor sinta por parte dos leitores este sentimento perante livros tão mal-executados.

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O publicar de forma independente

Muitas das vezes, e por diversas razões, um autor decide publicar de forma independente. Quer seja algo gratuito, quer algo que se pague, muitos são os leitores que julgam um autor por este estar a publicar de forma própria. Mais ainda o não ter anexado à capa do livro um carimbo editorial. É algo que imagino ser capaz de gerar revolta e, até em alguns casos, dúvidas quanto ao percurso.

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Deixem-me dizer-vos uma coisa: a autora Colleen Hoover tem publicado muitos livros de forma independente e olhem onde ela está. Tudo é possível e julgar não deveria entrar na equação.

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Porque acontecem?

As Editoras

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A ideia que tenho é que, atualmente, as grandes Editoras (as que não se paga para publicar) esperam que os manuscritos lhes cheguem já completamente embrulhados em papel brilhante e com champanhe perante tamanha perfeição. Não parece haver lugar para a oportunidade de trabalhar com o autor o que leva a que muitos autores sejam recusados por estas Editoras. Existe solução para isto, mas que passa por uma edição que implique um investimento (grande) do autor.

Uma edição coparticipada diz respeito ao pagamento por parte do autor a Editoras que vão trabalhar na publicação do livro. Algo que parece perfeito mas, infelizmente, sai caro. Acontece que muitas destas Editoras (as Vanity) adquiriram uma reputação tão negativa que, quem nelas publica, é olhado de lado. O resultado?: os leitores olharem para estes autores como autores que não têm qualidade por conta da Editora e do seu texto.

Se aliarmos este fator de credibilidade literária e que as superfícies comerciais/livreiros têm destas Editoras aos pontos que acima vos referi, estamos perante um estigma gigantesco e que corta as pernas a muitos autores. Os leitores, confrontados entre comprar/apoiar o livro de um novo autor editado por uma Editora vanity e o de um livro com o mesmo género publicado numa Editora Tradicional, rapidamente escolhem este último. Isto é igualmente visível nas Feiras do Livro, em que é frequente os autores sentirem que são olhados com pena.

Como começou este estigma editorial?

A principal resposta é o dinheiro. A maior Editora Vanity portuguesa é bem conhecida e noticiada pelos milhares que faz com edições pagas. E, não me entendam mal: eu acho que é fabuloso e que se gera tanto dinheiro, deve ter a capacidade para publicar material com muita, mas muita qualidade, não é? Infelizmente, não.

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As revisões

Referi-vos a “grande Editora Vanity portuguesa”, mas existem dezenas destas no nosso país e que pecam em algo que corta qualquer membro de um livro: uma revisão editorial séria. Em primeiro lugar, nem todas a oferecem e, em segundo, as que oferecem fazem trabalhos extremamente duvidosos em que parece que nem sequer recorrem a revisores profissionais.

Tenho plena consciência de que um autor deve saber escrever, mas também sei que um escritor não é um revisor e de que existem episódios da língua que não domina. Ademais a questão de português, existe ainda a questão da própria narrativa e personagens. Se estes pilares não forem tocados ou sequer da maneira correta, todo o livro é posto em causa e não só o autor irá sofrer, como os seus leitores se poderão sentir traídos. Em suma: existe mais um “livro” a alimentar a fogueira da má imagem da editora e, consequentemente, os seus autores.

A distribuição

O que leva um autor a procurar uma editora prende-se praticamente pela distribuição e, naturalmente, dos eventos literários que têm a possibilidade de ocorrer por conta disso. Infelizmente, quando temos a qualidade literária de uma editora questionada, isso pode comprometer o sucesso da distribuição do livro. Os livreiros, convencidos do trabalho da editora e não do autor, podem rapidamente descartar um livro só pelo facto de ter na capa o nome de Editora X. É algo revoltante, mas que acontece.

As redes sociais/sites

Sabemos atualmente que o autor tem uma importante tarefa na promoção do seu livro. Algo que ultrapassa até alguns domínios da Editora. Todavia, se a própria Editora não for capaz de gerar uma boa imagem online – com publicações com erros ortográficos, passatempos esquecidos, sem atenção a dias literários relevantes ou a marketing semanal aos seus lançamentos mais recentes -, pode igualmente comprometer a visão que um eventual leitor tem daquela Editora e nem sequer se preocupar em olhar para o catálogo literário da mesma.

Esta situação também pode acontecer com os sites e lojas online destas Editoras em que, em alguns casos, tem imagens desatualizadas, uma navegação confusa, e até parte da “interface” misturada com o inglês.

É também frequente ver as Editoras usarem os seus sites como portais de notícias ou blogues editoriais para, mais tarde, se esquecerem de que tinham aqueles projetos e compromissos, deixando o site ao abandono e sem a capacidade de o tornar dinâmico e vivo.

Os autores

Tive de concluir esta publicação com base naquilo que venho a observar e que, sinceramente, dá-me diversas comichões. Do que falo? Bem…, acontece que muitos autores publicam simplesmente por publicar… Ou seja, são autores que parece que não se preocupam verdadeiramente com a imagem que estão a passar nos seus livros e redes sociais. Exemplos comuns têm aparecido em alguns livros cujas fotografias de biografia são selfies.

Quando se publica um livro é importante perceber quais os nossos objetivos, o nosso percurso. O que nos faz gastar centenas de euros numa Editora Vanity ou numa edição própria. Tenho plena noção de que este caminho nem sempre é claro – eu bem o sei -, mas existem erros que podemos evitar somente pelo ato de pesquisar e observar autores que admiramos.

Se tivermos publicado com uma Editora Vanity é importante ler sobre ela, falar com autores que trabalharam com a mesma para compreender se aquela Editora irá complementar o nosso percurso literário. Se sim, importa perceber que existem deveres invisíveis e que um autor tem de estar preparado. Não falo somente do dever do autor em promover a sua imagem editorial e saber onde quer ir, mas o de saber que se tiver de resolver algum problema, este tem de estar preparado para ir à sede da Editora e enfrentá-lo de cabeça erguida.


Leitura Recomendada: Ser autor em Portugal

Publicar em Portugal é difícil, e tenho plena consciência de que quando comecei, em 2014, não existia nem metade desta informação. Dizem que mais vale tarde do que nunca e, honestamente, percebi isso. Compreendi que se planear editar a pagar, tenho de estar disposto a ir a eventos que a Editora me oferece, assim como tenho de ter a capacidade de resolver qualquer problema pessoalmente e não somente por correio eletrónico. Percebi ainda que um livro tem um valor incalculável e a nossa posição poderá ditar muito, não só do seu percurso, mas do nosso.

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