Será que um leitor também escreve o livro que lê?

Vivemos numa era grandiosa na literatura. Temos sagas míticas e os seus autores. Aqueles que, ao que nos parece, passaram horas, meses, anos a construir algo que o leitor irá ler, se for preciso, em dois dias. Mas será que estes autores quando estão a construir as suas narrativas e mundos, escrevem e criam literalmente tudo ou, pelo contrário, tem também o leitor esse papel? Pois bem, foi aquilo com que me debati ao ver esta mítica frase do lendário Stephen King:

As descrições

Sim, a citação que vos mostrei começa por referir as descrições pelo que me parece lógico começar também por este ponto ao invés de comparar uma descrição à mitologia criada por um autor.

Stephen King diz-nos que o autor começa as descrições que faz na sua imaginação para, posteriormente, passar (o resto) esse papel para o leitor. Ora, sendo eu leitor e autor, não poderia concordar mais. Mas não me interpretem mal: bom desenvolvimento, nomeadamente o descritivo, são e conseguem ser cruciais para uma boa história. Mas será que o foco do autor deve ir somente para este ponto ou, por sinal, deve permitir ao leitor um papel também ativo e que o envolva na história? Que, quiçá, o faça até protagonista?

Diversos são os livros que li e abandonei por grandes fanfarras descritivas. Sentia a história cheia de tantos pormenores que apesar de louvar o trabalho de quem a escreveu, sentia que eu não tinha tempo para imaginar algo de diferente. Obviamente que este fator também tem o potencial de criar histórias ricas e onde o leitor possa estar verdadeiramente descontraído a apreciar o que lê. Mas se esta dicotomia existe, onde será que deve começar e acabar este trabalho do autor que é passado ao leitor? Bem, penso que tudo se define a uma coisa: ao género literário.

Diferentes géneros, diferentes formas de escrever

São diversas as vezes em que olho para o mundo de Harry Potter e fico surpreendido como, atualmente, a autora parece lançar bombas, contos, histórias ou factos de tudo o que envolva o universo que criou. Remetendo sempre estas situações para o facto de que sempre o imaginou, não deixo de ficar estupefacto pela mente da autora. Mas, no meio disto, existe uma questão que surge: será que a autor realmente tinha todos estes detalhes, histórias e descrições em si e nas suas notas, ou os leitores foram-na ajudando?

Honestamente: não sei. E o que penso? Bem, acredito nos dois. Acredito que, há medida que os livros foram chegando aos leitores, a imaginação pulsante da coletividade humana tenha contribuído para que a imaginação da própria autora tenha colocado questões que outrora não pensara e a fez ir construindo todo o Universo Mágico. Um mundo do género fantástico e que, se não tivesse uma autora pulsante, muito dificilmente iria vingar.

O género fantástico precisa disto para se destacar. Desta criatividade e atenção aos detalhes, caso contrário todos os livros de vampiros seriam os mesmos, assim como os dos anjos ou até os de magia.

Mas se já estabeleci que no género da fantasia a atenção aos detalhes é importante, o que é feito das descrições? Do autor descrever até à exaustão cada peça do vestuário, das diferentes tonalidades da cor dos olhos ou, até mesmo, de memórias que não acrescentam realmente nada à história? Bem, considero que deve haver espaço. Eu próprio procuro dar esse “espaço” aos meus leitores para que, de certa maneira, eles possam manipular o possível e exequível do criado. Isto é: um leitor pode ter os seus gostos ou preferências no que toca à aparência de uma personagem e daquilo que acha atraente. Se o autor se lembrar disso, de que vai encontrar um humano criativo do outro lado, a sua própria experiência na escrita poderá ser extremamente divertida. É o procurar formas de escrever e descrever que atribuam alguma responsabilidade ao leitor.

Eu próprio procuro dar esse “espaço” aos meus leitores para que, de certa maneira, eles possam manipular o possível e exequível do criado.

O poder das emoções

Penso que é certo assumir que a interpretação da citação de Stephen King pode ser literal. Todavia, não nos podemos esquecer no poder das emoções. Em como a descrição emocional de um determinado evento de vida de uma personagem pode ser o local onde a imaginação do leitor também tem o dever de tocar. É certo que o autor conhece a personagem como ninguém. A sua personalidade, gostos, passado, presente e futuro. Mas o leitor também se conhece a si mesmo e é também humano. Ao darmos espaço para que ambas as emoções aconteçam e sejam válidas, estamos a permitir discussões e conversas profundas entre o certo e o errado, e o socialmente seguido ou reprovado.

Há vida para lá da história

Em suma, penso que o que o Stephen King nos quer dizer é a importância que o autor tem de dar ao leitor. Não somente pela história que vai encontrar, mas antes de pensar se o leitor quer e deve ter um papel em primeira pessoa no que lê. É o procurar a possibilidade de dar uma vida extra-autor ao manuscrito para que, no final da leitura, cada leitor consiga retirar do que lê uma mensagem e significado diferente daquilo que outra pessoa está também a ler.

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