As aventuras dos jovens autores nas Feiras do Livro

O ano era 2015 e tinha os nervos à flor da pele. Não era somente a primeira Feira do Livro de Lisboa a que ia, mas a primeira em que ia enquanto autor. Nessa altura, com sonhos ao alto e capacidade lógica reduzida, as expetativas eram enormes. Tinha consciência de que ia a um sábado e seria bom em movimento, mas tinha também a noção de que, sendo um horário após o almoço, podia não ter tanta gente.

Gente…, pessoas. Sim, acreditava que ia ter algumas. Afinal de contas, divulguei no Facebook e, atendendo aos gostos e seguidores, acreditava que ia correr tudo muito bem. Além do mais, estando eu no stand da grandessíssima Chiado Editora, como poderia ser diferente?

Descobrir a realidade

A diferença estava em tudo, para ser honesto. Mas, em especial, no facto de que os leitores que passam não se mostrarem interessados em falar connosco. Vistos como bichos que publicamos livros, por mais sorrisos ou bons-dias que desejamos a quem passa, o certo é que a maior parte dos leitores nem se digna em responder. Ou seja, esta minha primeira experiência, apesar de enriquecedora no que toca a experiência, traduziu-se antes no conhecimento de que o trabalho tinha de ser outro e de que havia coisas a falhar…

Se vendi? Sim, um livro de uma amiga lisboeta que me foi visitar por saber que eu ali estaria e, posteriormente, outras amigas que apareceram para me ajudar na companhia. Foi uma primeira vez boa, sem dúvida, qualquer venda é ótima, mas não consegui deixar de me sentir triste por me aperceber que, quem por passava no stand, nem perder tempo a olhar duas vezes. Não refiro sequer o comprar, mas antes à simples e boa educação. Foi quando também me apercebi das desculpas que eu próprio dava interiormente para justificar isto. E porquê? Porque pensava que seria diferente. Que ver-se um autor de um livro “ao vivo” iria gerar, desde logo, alguma resposta…

As aprendizagens de 2019

Quatro anos passaram e, com uma nova editora e numa Feira que, pensava eu, ganhava experiência em organização, voltei a Lisboa para promover o Esquecido. E, se em 2015 as minhas ideias moldavam-se em sonhos, no ano passado sabia o meu lugar e aquilo que seria possível. Não só pelo trabalho da editora, que se esforçou ao máximo e deu o seu melhor no seu primeiro evento desta magnitude, como eu próprio tinha ganho uma outra consciência quanto à importância da independência do autor e a sua autonomia.

Tenho de ser sincero: se pensava que a organização seria para melhor, aquilo que vi em 2019 foi uma maior divisão entre grupos editoriais poderosos e os recentes. Atendendo a que o assunto deveria ser os livros e somente isso – um bocadinho como até acontece na Feira do Livro do Porto -, fiquei como que revoltado por novos participantes terem somente direito a um pedaço de jardim quase que anexo à Feira em si. Revelo-vos que tive medo. Que mesmo tendo consciência de que não era (nem sou) um êxito de vendas, poderiam ser muitos os leitores a não se dar à aventura de descobrir quem são os novos participantes e as novas vozes que chegam ao mercado. Contudo, para surpresa das surpresas e com uma boa promoção da Editora e minha – pois ficara consciente de que o trabalho que eu fazia para me promover contava -, não tive somente um nem duas pessoas. Cheguei a ter desconhecidos, a ter familiares e até curiosos que se atreveram a acreditar na pessoa que ali estava e na história que apresentava.

O reforçar das crenças

Esta jornada na Feira do Livro de Lisboa, do Porto e de Leiria veio, a cada ano, dar-me a certeza de duas coisas: a Editora tem um papel preponderante no seu trabalho. Quer seja em marketing, quer em posicionamento e até, quiçá, ofertas e descontos. Contudo, o Autor tem também esse papel. E, em 2019 e 2020 aprendi isso.

O que fiz eu afinal em 2020? Bem, utilizei todos os meus recursos. Desde imagens promocionais editoriais até próprias, percebi a importância de investirmos em promoções nas redes sociais e de, ao irmos para estes eventos, termos o espírito aberto. Conseguir compreender que poderemos ter desde nenhuma pessoa, a uma, duas, cinco, dez.

Qual é, afinal, a importância das Feiras nos Autores?

Qualquer que seja o evento de promoção do nosso livro, a sua importância em nós autores é grandiosa. Não só emocionalmente, mas também de nos dar um certo reconhecimento do nosso trabalho. Todavia, isto é doloroso. Algo que eu passei em cada Feira. A ansiedade em perceber se iriam aparecer leitores. Se estes leitores seriam conhecidos ou desconhecidos. E, como disse: se as pessoas com quem simplesmente iria cumprimentar, teriam a decência de responder.

Estes eventos, com toda a sua carga, são também forma de, de certa forma, perceber se o nosso livro atingiu o seu propósito e até, em termos editoriais, se o mesmo gerou posteriormente a sua procura. Se aliarmos esta pressão ao facto de que, na maioria dos casos, poderemos vir a estar longos quartos de hora completamente sozinhos numa mesa, a sensação é aterradora.

Como apoiar os autores?

Vou ser sincero: o título inicial desta publicação era exclusivamente referente a isto. Mas rapidamente percebi se queria chegar aqui vos tinha de relatar o que passei e senti ao longo destes anos. Desde o não ter ninguém, a ter conhecidos e alguns desconhecidos que deram asas à aventura. Agora que o fiz, penso que se tornará claro o que considero importante na forma como podemos apoiar os nossos autores nas Feiras do Livro.

Cumprimenta os autores Não julgues um autor pela sua idade Não penses que um livro, por ser de Editora X, tem menos valor que um livro da Editora Y Permite-te a descobrir o livro que o autor apresenta Apoiar não quer dizer comprar Fala com o autor Folheia esse livro e permite-te a entrar nessas páginas Cria empatia com ele e sorri

O que senti enquanto autor?

Tento sempre ser positivo e otimista. O de ir buscar o que fiz para saber que, na altura, realizei o que conseguia. Mas, como vos disse, nem sempre me sentia assim durante as sessões de autógrafos, pelo que chegou a altura de vos revelar isso tudo.

Angustia Solidão Não compreendido Julgado pela idade Diferença de tratamento da própria Feira Entusiasmo Dúvida no meu sonho Fracasso Incerteza Animado Sonho renovado

São muitas as emoções. Umas que se complementam, outras que são completamente antagónicas. Mas é assim. É a realidade de quem chega e pensa que terá de, eventualmente, passar uma hora e meia sem ninguém a aproximar-se ou sequer cumprimentar. Algo que ainda costuma acontecer é ter pessoas a aparecer após sairmos de lá porque, e nas palavras dos livreiros, terem tido vergonha de interagir connosco. Pois bem, fica aqui um segredo: também nos sentimos assim, com vergonha e expostos. Sentimo-nos como que vendedores ambulantes, humanos, com desejos, medos e expectativa.

Posto isto, se virem algum autor numa Feira não se limitem a ignorar o seu sorriso ou cumprimento. Um sorriso não quer dizer que têm de ir comprar a sua coleção inteira, quer antes dizer que são bem educados e que, acima de tudo, vemos aquela pessoa e, mesmo que não tenhamos tempo/paciência/vontade para nos aproximarmos, desejamos a melhor sorte e trabalho.

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