642: Um segundo até ao fim (?)

O texto ficcional que irás ler é inspirado no projeto da Sofia Costa Lima: 642. Este projeto consiste num conjunto de 13 (temas em) texto, retirados do livro 642 things to write about. O tema do primeiro texto é “O que pode acontecer num segundo”.


Inspiro.

Expiro.

Quanto tempo passou? Um segundo? Não sei. Perco facilmente o fio à meada. Mas de uma coisa tenho a certeza: enquanto me perdi neste exercício respiratório – o ensinado pelo meu psicólogo – , dou-me conta de como neste intervalo de tempo místico, muita coisa saiu de mim. Bem sei que mal esse segundo se foi, outro chegou, ao ponto de inundar-me com sentimentos e pensamentos loucos. Era como se estivesse obcecado.

Foi um segundo para inspirar. Um outro segundo para expirar.

Um segundo em que pensei aliviar-me desta vontade de deslizar a faca pelo meu pulso para, num outro instante seguinte, estar a imaginar o que seriam os segundos seguintes. Livres? Despreocupados? Sangrentos? De arrependimento?

Inspiro.

Expiro.

Não sei se a maioria das pessoas sente isto, mas para mim um segundo é sôfrego. É como sorver ácido pela garganta abaixo. É um segundo de lembrete desta terrível dor que carrego. É um segundo em que também me lembro que não consigo explicar esta dor. É um segundo que me esconde o sorriso amarelo das lágrimas em cascata; o que me deixa sem comer para, depois, devorar tudo, qual incompreensão.

Às vezes, de forma estúpida, começo a olhar para o irritante relógio de parede da minha cozinha, pensando em quantos segundos consegui sobreviver a isto. Ultrapassar por isto! A resposta parece-me demasiado complexa e comprida nesta junção de tempo, mas é assim que a minha mente tem funcionado. Bem, pelo menos nestes dias. Ou serão semanas? Talvez meses? Eu não sei. A minha única certeza é o segundo em que olho para a faca e o instante seguinte, em que olho para o meu telemóvel.

Uau, ele é um viciado em telemóvel!” – é o que devem estar a pensar. Mas… isso não é propriamente verdade, já que nem vontade tenho para falar com alguém. Tenho sim, vontade em que alguém queira falar comigo… Confuso? Eu sei, mas no segundo seguinte já me esqueci.

Zzzap.

Já está!

Um segundo.

Será que valeu a pena esperar? Será que deveria dar mais valor ao segundo e pensar na minha vida no seu todo?

Ugh! Por que raio isto é tão difícil?

Bzzz. Bzzz.

Ali está! Eu sentia que ia acontecer. A razão pela qual não desperdicei a minha batalha interior. O mesmo motivo que me levou a agregar estes segundos, a ter esta consciência, para me impedir fazer algo que acreditava que me iria arrepender. Quero dizer: sei que neste segundo, quiçá, não me arrependeria. Mas acredito que não teria segundo seguinte para processar esse arrependimento.

É confuso. Mas é a minha mente ultimamente. Como um gigante relógio que, com este telefonema, dava-me corda para não desistir de tentar agregar segundos, ao invés de deixar que os meus pensamentos negros se ocupassem deles.


Por detrás do tema

Num segundo acontece muita coisa. É a diferença entre o adormecer e acordar. Entre um sorriso e uma lágrima. Entre o carregar em submeter ou, simplesmente, no botão de apagar. No ser humano, na vida, o tempo tem peso, e foi isso mesmo que quis retratar. O como num instante podemos ser ou demonstrar sermos as pessoas mais felizes e realizadas do mundo, caindo depois no segundo seguinte num abismo.

Da mesma forma como a tristeza, solidão, apatia, depressão se manifestam “em segundos”, a forma como intervirmos também. E, desvendando o texto que escrevi, é esse o peso do telemóvel. O de demonstrar como, quer seja uma chamada, mensagem, um toque, um beijo, um sorriso, uma conversa, um “eu gosto de ti”, “tens valor”, “eu estou aqui para ti”, podem ter um peso gigantesco em alguém.

A única coisa que sei desta frase é que terá um “ponto final”. Não sei quando o vou empregar – ups, parece que já aconteceu -, mas isto acaba por ser a representação do que acontece na vida. Não controlamos o tempo, mas podemos ter alguma influência no mesmo. Não se esqueçam disso!

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