O Covid-19 na literatura – Parte II

Foi há já algumas semanas que vos falei da forma como esta nova pandemia estava a moldar os contornos literários. Tal publicação levou-me não só a refletir o que iria mudar em algumas rubricas aqui no blog, assim como a dar-vos uma lista de diversos livros e e-books a lerem nestes meses.

Mas o tempo foi passando, e as notícias e iniciativas foram-se alterando ao ponto de levar-me a dar-vos algumas atualizações relativamente ao que vos disse nessa publicação e também algumas publicações no Instagram.

O mercado literário continua em queda?

Sim, sim e sim. Desta vez, e ao longo das últimas semanas, foram até o número de editoras que reforçaram esta mensagem por meio das redes sociais. As quedas de vendas foram enormes e muitas livrarias independentes correm sérios riscos nesta que é a maior crise do setor.

Nem tudo é mau – eu sou muito otimista – já que tem levado a muitas pessoas a fazer encomendas pelas redes livreiras (como a Wook) ou até mesmo comprado mais e-books. As próprias editoras estão a esforçar-se para “carrregar” diversos títulos, como anunciou a Saída de Emergência.

Outro dado ainda interessante e que vai contra o reiterado por muitas editoras, é que as leituras em formato e-reder cresceram, em Portugal, 118% “comparativamente com o mesmo período no ano passado”.

Mas e as livrarias independentes?

Uma pergunta que me aflige visto ser o segmento do setor que mais está e irá sofrer. Mas foi com esta realidade em vista que foi criada a RELI – Rede de Livrarias Independentes, na passada quinta-feira. Mas o que é efetivamente a RELI?

“é uma associação livre de apoio mútuo composta por livrarias de todo o território português sem ligação a redes e cadeias dos grandes grupos editoriais e livreiros. Procuramos uma coordenação de esforços para enfrentar a crise no mercado livreiro, que vem comprometendo a existência de pequenas livrarias em todo o país — principalmente agora neste período de pandemia —, intervindo junto da sociedade e dos poderes públicos.

Esta rede tem também uma carta aberta e endereçada às mais altas figuras do Estado, onde apela a um maior cuidado na cultura – com a compra de livros para as bibliotecas (como acontece com sucesso em outros países europeus e permite, inclusive, o apoio a novos autores), a fiscalização dos descontos praticados por redes online e sem cumprimento dos dispostos legais, assim como outras sugestões que podem ser lidas por vós.

É com muito orgulho que vejo estes passos a serem tomados, e também com alguma amargura referente a mim próprio, que ao longo dos anos fui trocando superfícies comerciais para estas comprar. Mas é a pensar nisto, e no que poderei fazer diferente no futuro, que vos apresento um dos projetos da RELI: o de o leitor encomendar livos às cegas, confiando na escolha do livreiro:

Escolha um livreiro, peça-lhe livros* de olhos fechados e receba um pacote surpresa em casa. Mediante pagamento igual ou superior a 15€, por cada livreiro à escolha.

Infelizmente nem todas as redes livreiras integrantes da RELI estão neste projeto, mas aconselho a consultarem as livrarias aderentes e experimentarem a surpresa.

E há mais iniciativas?

Perguntaram, e respondo: sim. Na verdade, tanto a Kobo, a LeYa e a Fnac estão a oferecer 260 mil audio-books e e-books gratuitos. Vão estar disponíveis os títulos de escritores como António Lobo Antunes, Eça de Queirós, Antoine de Saint Exupéry, José Rodrigues dos Santos, entre muitos outros. Na verdade, já descarreguei alguns destes títulos – incluindo clássicos em inglês.

Podem aceder a estas promoções no browser ou na aplicação da Kobo, em https://www.kobo.com/pt/pt/p/free-ebooks para livros em inglês e em https://www.kobo.com/pt/pt/p/leiturasempausa para livros em português. Já os clássicos em inglês estão disponíveis ou nessa categoria, ou na página própria.

Uma outra mensagem

Sou otimista e gosto de o ser. Por mais que saiba o quão dura possa ser a realidade, gosto de procurar diferentes pontos de vista. E é a pensar nisto que, ao fazer apelos para comprarem livros e apoiarem as pequenas editoras/redes livreiras, que vos peço: se o fizerem, façam com atenção.

Não temos a completa consciência do que virá depois desta pandemia. Se uma recuperação grande, lenta. Se uma nova estirpe no final do ano, não sabemos. Ler um livro é uma boa resposta a estes dilemas ao fazer-nos pensar noutras realidades e escapar à nossa. Mas, por favor, ao comprarem livros, tenham também a consciência de fazer compras/gastos conscientes.

3 Replies to “O Covid-19 na literatura – Parte II”

  1. Acho que as grandes editoras nunca quiseram apostar muito no livro digital, preferem vender o físico porque vende melhor. Deviam ter habituado os leitores a ler a versão digital, agora seria mais fácil. Eu achava que as pessoas não gostavam mesmo de ler ebook, sempre que oferecia o ebook do meu livro, recusavam. Quando lancei a iniciativa de oferecê-lo para leitura, fiquei surpreendida.

    Beijinhos!

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    1. Olá, Ana!

      É uma grande verdade e até me fizeste atualizar a publicação com o valor de 118% revelado pela Kobo no que toca ao crescimento do mercado português. Os meios estão disponíveis e acessíveis online, os grandes grupos editorais é que precisam da venda física para continuar o seu negócio de pagamento de montras e etc., o que os trama nesta altura.

      Acredito que o mercado editorial será diferente, resta saber é se estes valores vão resultar numa aprendizagem saudável.

      Beijinhos

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