Clichés são maus?

Estava em fevereiro quando, finalmente, consegui ler Regretting You, da Colleen Hoover. Porém, antes de mergulhar por completo na história, recebi uma mensagem para dar feedback após a leitura, já que uma conhecida desta pessoa constatou que o livro tinha clichés. Tal surpreendeu-me, não só por esta “classificação rudimentar”, como pelo julgamento inerente desde cedo à história. Isto levou-me a pensar: será que um livro com clichés, é mau?

cli·chê
(francês cliché)
substantivo masculino

4. [Figurado]  Molde ou vulgaridade que a cada passo se repete com as mesmas palavras. = CHAVÃO, LUGAR-COMUM

“clichê”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/clich%C3%AA [consultado em 18-03-2020]

Associamos um livro, ou história, cliché quando a consideramos previsível, expetável. Conseguimos prever certas ações e momentos das personagens e, eventualmente, o final de cada linha narrativa. Mas será que isto é mau? Que o leitor prever um determinado fio narrativo torna uma história, um livro, mau?

O que é um livro?

Para responder a isto, sinto que é preciso refletir sobre o que é um livro. Qual o significado. Longe de uma definição de dicionário, um livro permite o leitor viajar e refletir sobre momentos, episódios e marcos históricos e sociais, quer aliando a ficção, ou a realidade.

Nesta viagem e jornada a acompanhar as personagens, diversos dilemas, confrontos, conflitos e conclusões são realizadas, quer pelas mesmas, como pelo leitor, que as vive. Nisto, o leitor sente, vibra, emociona-se. Um livro é isto, e muito mais. É a forma como a história e os seus contornos são experienciados pelo leitor. Nestas histórias, tal como na vida, encontramos situações que, como humanos, conseguimos imaginar, pensar. Somos inteligentes e temos a nossa capacidade fantástica de memória. Um baú cheio de recordações e moldes comportamentais e normativos que nos permitem tirar ilações do que vamos analisando indiretamente na leitura.

O propósito

Um livro, para além de tudo, acaba por ter na sua história um objetivo. Quer seja puro entretenimento ou escapatória mundana, cabe ao leitor perceber o valor que tem para si, sabendo, contudo, perceber a qualidade do livro. Dito isto, parece-me ser demasiado cruel uma história, por mais ou menos clichés que tenha, seja considerada de terrível ou, em última instância, não merecedora de atenção, por este feito. Existe espaço no mercado para essas mesmas histórias, tal como existe espaço na vida que levamos para ter essas previsibilidades.

Ler é dos maiores poderes a que podemos ter acesso. O acessar informação, cruzar informação, refletir. E no meu ver, não é uma linha narrativa tornar-se previsível que deite um livro abaixo. Que não nos permita usufruir dele e não apreciar outras coisas. Quem lê por gosto, acredito que atenta às personagens, cenários, detalhes e emoções criados. E, no meu caso, não é o facto de eu prever uma ou duas das decisões/revelações das personagens/história, me vá fazer apreciar menos e recomendar esse mesmo livro.

Há então fundamento?

A meu ver, e pelo que vos disse, não. Um livro, por mais objeto global que seja, é uma experiência pessoal e única para quem o lê. A minha trajetória de vida faz com que eu consiga prever coisas que outros que tenham uma vida diferente, não consigam. O inverso também acontece. Mas é por isso que, ao falarmos de livros, devemos ser capazes de fazer justiça a eles. De ao terminar uma história, o olhar como um todo. Tal e qual como nós.

Os livros têm vida, são mais que objetos opacos. Se na nossa sociedade o cliché é biológico, como é que tal “característica” é imperativa na definição do que haveremos ou não de ler?

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