Os Gritos do Silêncio – Conto

Sempre me achei normal. Tinha a vida que muitos poderiam considerar rotineira, mas eu era feliz. Estava segura, era amada. Era uma vida normal. Gostava de ir às aulas, de me debruçar sobre os problemas matemáticos que tanta dor de cabeça davam a alguns dos meus amigos, e até às de português, onde o gosto que a minha mãe me dera pela leitura se espelhava. Só havia uma coisa que me preocupava seriamente. Que me deixava ansiosa, a tremer das pernas sempre que o tema era falado: as provas de aferição. Era, realmente, o meu único problema aos meus onze anos. Afinal de contas, se o meu trabalho era estudar, não haveria muito mais que me enchesse a cabeça. Acreditava firmemente nisso.

Mas isso mudou.

Estava a sair das aulas, após uma tarde cuja última aula tinha sido educação física, quando me deparei com uns colegas de uma outra turma. Não sabia o nome deles já que eram um ano mais velhos do que eu, partilhando somente o campo de desporto connosco, mas não me eram desconhecidos. Eles riam-se, perdidos, de cada vez que eu olhava para eles. Era como se tivessem piadas privadas das quais eu era o assunto. Naquela altura não liguei. Estava cansada. Doíam-me as pernas e queria ir para casa. Era véspera de fim-de-semana e só queria deitar-me no sofá sem me preocupar com os livros. Iria brincar com a Sofia, a vizinha que morava no apartamento em frente ao meu, e com alguma sorte comeríamos algum gelado que nos tiraria o calor das temperaturas da Primavera.

Seria isso! Era isso que iria acontecer. Já me conseguia imaginar no descanso. Mas os risos dos rapazes pareciam agora mais próximos. Como se ecoassem por todo o parque de estacionamento. Já sabia que a minha mãe iria chegar mais tarde por causa do trabalho e que o meu pai tinha igualmente uma reunião, pelo que começava a sentir-me cada vez mais sozinha e incomodada num parque de estacionamento deserto a cada minuto que passava.

Incomodada com os olhares do grupo – pareciam teimar em não me largar -, encostei-me ao muro da escola, tentando que esse me escudasse e apoiasse na estranha solidão que me invadia. Aquele gelado caía agora tão bem…

– Estás sozinha? – o meu coração agitou-se dentro de mim, levando a que os meus sentidos despertassem do meu transe. Sentia-me cansada dos exercícios feitos em aula, mas conseguia perceber pelo canto do olho que os rapazes pareciam ter formado um semicírculo à minha volta.

– S-sim… – atabalhoei, arrependendo-me rapidamente da verdade dita – mas a minha mãe está a chegar dentro de minutos – consegui dizer, engolindo em seco.

Eles entreolharam-se, com uns sorrisos parvos na cara, fazendo com que quem falou comigo voltasse a falar de forma melosa:

– Nós fazemos-te companhia. Assim não estás sozinha.

– É isso mesmo, Bernardo. Nós estamos aqui para ajudar, princesa.

A maneira como pronunciara a palavra princesa dera-me arrepios, não conseguindo compreender o comportamento destes colegas. O porquê de sequer estarem aqui e a falar comigo. Seria simpatia? Estaria eu somente amedrontada por não os conhecer?

O meu olhar varreu os rostos, assimilando-os como se a minha vida dependesse disso. Um desejo recôndito que surgia de forma inexplicada. Não me sentia bem, e aquilo que julgava não existir em mim, ressurgiu com uma intensidade que a minha camisola se colou às costas: estava com medo.

O rapaz chamado Bernardo aproximou-se de mim a passos largos, fazendo-me morder o lábio, como que tentando que isto não passasse de um mal-entendido e a minha mãe aparecesse a qualquer momento. Ou o meu pai, no seu jipe, capaz de meter medo aos rapazecos com o rugido do motor já envelhecido.

– Oh, vejam como está com medo. Não estejas, princesa. – Tentou, numa voz mais grossa, como se tentasse provar alguma coisa ao seu grupo. – Estamos aqui. Aqui todos para ti. – Completou, levando a mão ao meu rosto quente, envergonhado e repugnado pelo ato de alguém que não conhecia.

Não me recordava quando respirar se tornara novamente tão pesado, como quando dávamos as três voltas à escola, mas agora parecia ainda pior. Como se o próprio oxigénio ganhasse um peso demasiado grande para que o meu corpo o conseguisse suportar.

A custo, tentei devolver força ao meu braço, afastando a mão do rapaz que me olhava agora de forma maliciosa.

Shiuu, calma. – Murmurou, pousando um dedo nos meus lábios, fechando-os, ao mesmo tempo que a sua outra mão era posta no meu ombro, descendo pelo meu pescoço. Acariciava-o de uma forma estranha e tão repugnante que o meu estômago me doía.

Será que vou morrer?

Queria sair dali. Que os meus pés se mexessem, mas era como naqueles sonhos. Os que gritamos e nos tentamos mexer, mas nada acontece. Como colados ao chão cimentado.

– L-larga-me – articulei, a custo. Tinha a boca seca, tamanho era o medo. Sentia-me amedrontada e queria ir para casa. Queria fechar os olhos e abri-los para ver que tudo isto não passara de um sonho. Um pesadelo.

Irrompida dos meus desejos pela música desconfortável que os seus risos faziam, consegui inspirar fundo até me mover e começar a correr por uma qualquer abertura no semicírculo. Burra que fui, esqueci-me do saco enrolado nas minhas pernas e caí de barriga no chão.

Pelos meus olhos toldados pelas lágrimas vi o semicírculo começar a fechar-se em meu redor, com o rapaz aterrador a deitar-se em cima de mim.

Não conseguia falar.

Não conseguia mexer-me.

O meu peito parecia colapsar dentro de mim, juntamente com o meu coração, esmagado contra o chão do parque sem espaço para bater. Para me manter desperta.

Queria chorar.

Gritar.

Mamã! – gritei mentalmente, já que a boca me era agora coberta com os dedos gordurosos do rapaz.

– Vai ser bom! Vais ver. Depois podes contar às tuas amigas como gostaste.

Procurei remexer-me sobre o seu peso, mas isso parecia provocá-lo mais, pelo que me senti gelar.

Não conseguia fazer nada.

O medo era demasiado para conseguir reagir.

Tentei olhar para cima, mas tudo o que via eram rostos lunáticos, com os olhos a saírem das órbitas, ao contemplarem aquilo que parecia uma obra de arte.

– Faz lá isso! – Gritou um.

Como se as palavras provocassem no rapaz que me prendia ao sofrimento uma aprovação necessária, este começou a remexer nas suas calças.

A princípio não percebia o que fazia.

Não compreendia.

Mas o depois chegou… O momento em que as minhas lágrimas me invadiram o rosto, fazendo-me soluçar de tamanho terror quando o senti.

Tentei remexer-me com mais violência, mas ele era demasiado pesado e alto para que os meus esforços resultassem em algo. Tentei por fim libertar-me da sua mão que me prendia a boca, mordendo-lhe os dedos com toda a força que tinha dentro de mim.

– AHHHH! – Berrou, desequilibrando-se para o lado, levando a que os seus protetores quebrassem por fim o semicírculo. Zonza pelo gosto de sangue agora nos meus lábios, tentei levantar-me, mas as forças tinham-se esgotado. Estava estendida no alcatrão, marcado agora pelo que acontecera. Eles podiam ter quebrado o riso e entretenimento em que estavam, mas eu sentia-me estilhaçada.

Perdida.

Com os olhos turvos de algo que não compreendia.

As minhas pernas não se mexiam, nem quando os rapazes dispersaram com os gritos de uma contínua que parecia ter saído do recinto da escola para fumar.

E depois foi tudo muito rápido.

Impossível de se registar por completo em mim. Era impossível após o que tinha sentido.

A incompreensão.

O medo.

O nojo.

A repulsa.

A minha alma.

Contar ao diretor da escola e aos meus pais foi das coisas mais difíceis de fazer. Nada me saía. Só um esgar de dor pela quantidade de vezes que mordera os lábios, nervosa que estava. Mas aos poucos fui-me apercebendo como a dor física que sentia em nada se comparava à do meu espírito, rasgada. Era como se gritasse, e ninguém conseguisse ouvir. Um grito silencioso que tudo o que devolvia era o seu eco.

As palavras carinhosas da minha mãe não me conseguiam dar alento, nem a forte presença do meu pai, que em tempos me dera a segurança capaz de enfrentar o mundo. Sentia-me pequena. Miserável. Incapaz de fitar os adultos, lembretes de uma inocência roubada. Olhá-los era vivenciar tudo, uma e outra vez. Eu não queria acreditar. Não queria senti-lo. Queriam todos ajudar-me, encher-me de mimos, mas não era capaz. Cada toque era como ser queimada pelos sete infernos, marcando a memória em algo que queria que desaparecesse.

O pior não foi o olhar de culpa dos meus pais, mas sim o voltar às aulas. Com isto, o que me era prazeroso, passara a ser um pesadelo. A paranoia moldava o meu dia, com medo de olhar por cima do ombro. Com medo de voltar a encontrar o rapaz que tentara algo que, até agora, era tabu. Que não passavam de meros sussurros contidos e envergonhados pelos rapazes e algumas raparigas. O problema é que para mim deixara de haver esse tabu, e o meu mundo mudara. Até com um toque da minha professora de matemática, outrora encorajador, era agora como um peso sob o meu peito.

Ficava difícil de respirar.

De viver.

Os minutos pareciam dias, e as horas como que séculos. Sofridos. Deixava de ver as cores da primavera, quentes, convidativas, para olhar antes para a relva pisada debaixo dos meus pés. Para os pássaros mortos, que viam os seus ninhos destruídos por uma qualquer bola de futebol perdida no campo de desporto da escola. Pensava que os meus dias seriam sempre assim…, mas os sussurros começavam a chegar a todo o lado. Como que levados pelo vento aos ouvidos dos adolescentes que ansiavam por ter algo de destaque a acontecer na escola amarelada da cidade de Pureza. A princípio não percebia o que eram. Mas não tardou muito até me lembrar dos mesmos sussurros dos rapazes que me rasgaram, e de que continuariam eles a ser a causa do meu sofrimento. Uma dor recordada pelos olhares das minhas amigas que amarguraram e se afastaram.

– Com que então já experimentaste…

– Agora percebo porque dizem que as “Santas” são as piores!

A dor foi demais, e aquelas que deveriam ser o meu porto seguro, eram agora aliadas do Diabo. A algo que não compreendiam.

Mas será que as poderia julgar?

Será que não estávamos todos naquela idade a pensar que o que me aconteceu era algo fantástico e que quanto mais cedo, melhor?

Nunca tinha pensando muito nisso, mas eram tantas as perguntas que só havia uma resposta: a culpa deveria de ser minha. Só podia, não era? Qual seria a outra justificação?

Nunca a vim a descobrir naqueles dias, mas sim quando os meus pais me quiseram transferir de escola e colocar a ser acompanhada por um Assistente Social e Psicólogo. Para mim era já indiferente. Eu deixara de falar para com os meus pais. De ansiar por os ver e até dos seus mimos para comigo. Os fins-de-semana eram também um ardor. Tinha medo de sair da cama. Nem a voz doce de Sofia me fazia mudar de ideias. Tremia só de pensar não ter os meus cobertores a escudarem-me do mundo. E isto matava-me. Doía.

Doía não perceber.

Doía levar com os olhares travessos.

Doía sentir-me sozinha.

Doía doer.

Só meses mais tarde consegui dizer que a dor atenuou. A nova escola revelara-se aberta à minha disposição. Todos os meus colegas eram amigáveis. Ninguém sabia do que acontecera, e sentir isso por meio de gestos tão genuínos de boas-vindas, dera-me de novo o prazer de falar com os outros. De chegar a casa e contar aos meus pais como fora o meu dia e de como conhecera o Ricardo, a Marlene, a Sara e o Tiago. De conseguir, de facto, sorrir. De sentir, aos poucos, que voltara a ser uma mera criança. Uma rapariga que ganhava novamente o amor pelas aulas, pelos amigos, e de que nem todos os rapazes eram maus. Em que a única preocupação já não estava dentro dela, mas do que a escola esperava dela: os testes. Era como se o cheiro do verão aquecesse os pedaços escuros da minha alma.

Ainda tinha pesadelos. Os sorrisos só conseguiam até certa medida mascarar a dor do subconsciente. E lembrava-me muito bem das pedras de alcatrão que me fitavam, também imóveis, enquanto Bernardo se ajeitava em cima de mim. O vómito parecia sempre surgir ao acordar. A agonia. O sufoco. Mas os meus novos amigos ajudavam-me sem saber, e sem saber ia-me também regenerando.

Mas o passado arranja sempre forma de nos atormentar, não é? Foi o que percebi quando cruzei uma esquina da escola e o encontrei.

O passado.

Olhava para mim, hirto, com olhos cor-de-âmbar e rosto pálido. Um arrepio percorrera-me de alto abaixo. Quis mexer-me. Fugir a sete pés, mas os pés simplesmente não se mexiam.

Não era o Bernardo. Esse rosto nunca esqueceria. Era antes um dos seus amigos do círculo da vergonha. Um que julgara numa escola bem longe.

Preparei-me para gritar, porque agora, de facto, conseguia fazê-lo, mas o rapaz diante de mim começou a chorar. Numa prece silenciosa, frente a mim, e com o mundo parado em nosso redor. Eram lágrimas gordas, violentas, que o chicoteavam pelos males que a sua memória lhe recordava, assim como me relembravam do meu sofrimento passado.

Começara a tremer novamente.

A arfar por um bocadinho de vida.

O rapaz aproximou-se, a custo, encurtando a distância de forma penitenciária. Por fim ergueu o olhar, encarando-me com um olhar cavernoso, e abraçou-me inesperadamente. Chorava convulsivamente, e aquele que fora um dos rostos que me atormentara, dera-me a compreensão de que nem sempre as coisas são como as pintamos.

– Desculpa… – Soluçava, com um coração a bater tão descontroladamente que pensei que morreria nos meus braços.

Assim ficámos, por longos minutos. Ignorámos o toque de entrada, assim como o segundo, cinco minutos depois.

Vim a saber, horas depois, que o rapaz, de nome Luís, tinha sido abusado pelo pai desde tenra idade. Nunca lhe pedira para me contar detalhes, e hoje, quatro anos mais tarde, congratulo-me desse meu momento sábio. Percebi que há muita história por detrás daquele cúmplice de agressor. E mesmo que nunca, mas nunca, o conseguisse desculpar pelo seu ato, ele conseguiu libertar-se do silencio dos seus gritos. De enfrentar aquele que o deveria de proteger, e que ao invés, o esfaqueara de medo, desilusão e desumanidade.

Parece que até o silêncio consegue tornar-nos surdos, mas se soubermos ouvir, talvez consigamos ouvir os seus gritos. Os seus gritos de sofrimento, agonia, dor. Gritos que procuram ajuda.

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