Como é ser mãe de uma escritora? – Entrevista

Vou contar-vos um segredo… Quando entrevistei a Catarina Oliveira, e publiquei a sua entrevista a 21 de março, tinha mandando também uma entrevista à sua mãe. Estava realmente expectante sobre um novo olhar que poderia trazer nesta matéria, e fiquei muito feliz com a ideia após ter lido uma conversa honesta e muito poderosa. Com isto, agradeço à Fernanda, mãe da escritora do livro Alcateia, por me ter dado esta oportunidade e a ter aceite. Não poderia achar mais relevante partilhar este conhecimento convosco pelo que vamos começar. Faremos as observações no fim:

Para começar, a pergunta básica: como é ter uma filha escritora?

Olá Diogo. Por um lado é um orgulho imenso, principalmente quando sabemos o papel que desempenhamos nesse gosto pela escrita. Desde a primeira infância, logo desde bebé que eu li livros à Catarina. Eu costumo dizer que numa mão estava a Catarina e na outra um livro. Nada surge por acaso e acredito que o gosto pela leitura e escrita se constrói, se incute, e esse foi o meu papel. Por outro lado é um desassossego. Não é fácil lidar com uma jovem que vive em múltiplas realidades, muitas construídas por ela própria e depois quer que lhe demos opinião. Sentimo-nos um pouco impotentes porque é extremamente difícil acompanhar as ideias da Catarina . Eu costumo dizer-lhe a brincar: “o teu cérebro é um lugar estranho”. É um misto de sensações.

Gosta de ler tudo, tudo, o que ela escreve, ou só quando ela o pede?

Pois, leio tudo o que escreve, mas depois de estar finalizado, ou seja, normalmente só leio os livros após terminados, até para fazer uma primeira revisão. Adoro tudo o que ela escreve, porque as histórias da Catarina, sendo de fantasia, têm como pano de fundo a realidade e a Catarina consegue criar enredos e personagens verdadeiramente fantásticos, com a interseção destes dois elementos.

Como olha a Fernanda, à luz das experiências da Catarina, para os hábitos de leitura dos portugueses?

Sou muito cética em relação aos hábitos de leitura dos portugueses, principalmente dos jovens. Pelo menos em relação aos jovens acho que leem cada vez menos. E baseio esta afirmação na minha própria realidade, como professora, quando mando uma turma falar sobre um livro que tenham lido, a maior parte dos alunos (atrevo-me a dizer que em algumas turmas chega aos 90%) não tem um livro para falar. Perguntam logo se pode ser um filme. Poderá a  realidade das grandes cidades ser diferente, até porque parece que estudos feitos pelo PNL comprovam que os jovens estão atualmente a ler mais, mas estou cética em relação a isso. Nesse aspeto a Catarina não é exemplo, é exceção porque ela sempre leu imenso. Houve uma altura que até ia pela rua a ler e tive que a proibir de ler enquanto andava pois  batia contra tudo e podia magoar-se.

De que forma o papel de uma mãe é fundamental para este sonho de autora?

Acho que já respondi a esta questão: é fundamental . Os bons hábitos começam em casa e se a criança viver num ambiente em que não privilegiam os livros e a leitura, raramente dará um bom leitor.

Sendo mãe, que tipo de críticas recebe sobre a primeira obra da sua filha?

Muito poucas, normalmente boas. As más, se as há, não me têm chegado.  Se calhar ninguém tem coragem de as fazer, porque sabem que a barreira é poderosa.

No meio deste mercado literário em transformação, quem sofre mais: a mãe ou a filha?

Ambas, mas com mais intensidade a mãe. A Catarina escreve para relaxar, para se divertir, sou eu que faço todo o trabalho de divulgação e promoção, logo, sou eu que mais sofro com a falta de estratégia do nosso mercado editorial. As grandes editoras não apostam muito. Um editor disse-me que há pouco público para o tipo de literatura que a Catarina escreve e eu respondi-lhe que há muito pouca oferta. Há uma brecha no mercado editorial português neste tipo de literatura e não me parece que haja uma volta tão cedo.

O que diria aos pais que por vezes têm dificuldade em compreender a escrita e o “querer ser escritor/a” por parte dos filhos?

São pais que normalmente também não têm hábitos de leitura, por isso, não tenho nada a dizer-lhes. É um orgulho ter uma filha escritora e é com pena que por vezes dou comigo a refrear o sonho da Catarina em ser escritora a “tempo inteiro” dado o nosso mercado editorial. Mas a escrita acompanhará sempre a Catarina, e eu estarei lá sempre para lhe dar força e coragem. A escrita é uma arte maior, há muita gente que escreve, mas poucos escritores, e a Catarina um dia será uma grande escritora, não tenho dúvida.


Leitura Sugerida: Ser Autor em Portugal

Muito obrigado Fernanda por este bocadinho. Tenho a certeza de que irá ajudar a dar novas perspetivas sobre o meio. Especialmente quando os hábitos de leitura são cada vez mais preocupantes e temos cada vez mais jovens talentosos na busca deste sonho incompreendido.

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