Ser autor em Portugal

O Caderno do Diogo – Ser Autor em Portugal

Cheguei àquele ponto. Aquele que é quase que tabu para quem ama escrever. Quem quer, de facto, ter uma carreira no nosso país. Tabu não é propriamente a palavra certa, mas sim sofrimento. É aquele assunto que faz um autor prespetivar-se quer a ele, quer ao mercado e país. E custa. Muito!

Há muitas questões a ter em conta quando se fala disto. Não só temos autores que publicam por editoras a sério, como por vanity, por edição de autor e desta, tanto pode ser em livro, como eBook. Há toda uma panóplia de questões a ter-se em conta. Desta forma, e para não cair em barbaridades, vou falar do que acho por meio da parca experiência que tenho.

Quando comecei a escrever, em 2008/9, fazia-o em segredo. Escrevia todos os dias, publiquei séries sem parar e em diversos géneros, e sempre em anonimato. O meu sonho era mais tarde chegar ao lugar de mandar um manuscrito para uma editora, ser aceite, e sair em livro. Iria adorar conhecer leitores, discutir com eles, ter mais ideias e repetir tudo de novo. Mas as coisas não são assim. E mesmo que os anos tenham passado, desde 2013 até agora, nada na verdade mudou.

Eu sou daquelas pessoas que adora sonhar. Não me dou limites. Adoro adormecer a pensar que vou ser capaz de escrever um sucesso, ser traduzido e depois adaptado ao cinema. É algo bom de se sonhar. É uma motivação interna que, mesmo sabendo ser impossível em Portugal, me ajuda. Alimenta e aconchega que nem um belo chocolate. Mas é ao mesmo tempo amarga. Ser escritor em Portugal é difícil. Só para vocês terem uma noção – e como referi anteriormente -, uma Editora em Portugal recebendo cerca de 1500 manuscritos, só 2 destes passam. E por mais que isto me pareça justo, já que muita gente pensa ser autor ou que está na altura de publicar quando não está, existe o outro lado da moeda. Aquele lado em que se tem um texto mesmo bom e que com os toques editoriais certos, ficaria excelente. Não é à toa que no mercado americano se vejam longos parágrafos de autores a agradecer a agentes e editores, mas porque não acontece isso cá?

Com isto, muitas das vezes a única solução é uma publicação de autor ou recorrendo a uma editora Vanity. Isto pode correr muito bem, é certo. Mas muito, muito mal. Somos tão iludidos com e-mails pomposos e com promessas, que após publicarmos, percebemos como funciona mesmo o mercado. Como ter um livro publicado muitas das vezes não nos faz mais ou menos escritor que quem tem. Mas a questão depois não é só esta. Os próprios leitores e livreiros são céticos a estas Editoras Vanity ou edições de autor. A ideia de o que está lá fora é melhor está tão enraizada no mercado literário, que me pergunto como quem escreve por edição de autor e muitas vezes sem conhecimento de marketing, ou com leitores que não dão críticas, conseguem depois crescer mais nesta área.

Ser autor cá não é fácil. Podemos não pagar IVA ao receber os nossos Direitos de Autor, mas em geral, o valor ronda cerca de 10% a receber por cada livro, sendo que o autor depois só recebe quando se chegar a um valor que ronda os 200-250€. É certo que ninguém escreve para ganhar dinheiro, mas havendo poucos hábitos de leitura de autores lusófonos, se juntarmos à equação autores desconhecidos, podemos imaginar um belo cenário…

Poderia dizer que quem publica com grandes editoras está melhor. Mas desculpem, mas não acredito. Já foram diversos os títulos que li em português que até fiquei com um peso no peito por dar-me conta de que se fosse no mercado americano, aquele livro facilmente chegaria a uma adaptação cinematográfica ou para série. E isto é triste. É triste a nossa industria do cinema não olhar para os nossos autores, e os nossos canais de televisão não se aventurarem neste meio. Tivemos séries como Os Maias, Equador, O Detetive Maravilhas, Uma Aventura, e por aí fora. Mas e outras obras? Outros autores? José Rodrigues dos Santos, Liliana Lavado, Nuno Nepomuceno, etc.? Porque é que existe tanta relutância em se adaptar?

Estou extremamente revoltado ao escrever-vos esta publicação. E mesmo que tenhamos boas Editoras, boas Editoras Vanity, e boas Edições de Autor, os portugueses tratam mal os seus autores. Não os apoiam. E isso até se vê com os bloggers literários, ou Youtubers, que mais rapidamente fazem uma review espontânea de um livro traduzido, do que lusófono. Mas é tão fácil apoiar. Eu este ano decidi ler a mesma proporção de livros estrangeiros que em português. E digo-vos, tenho descoberto coisas muito boas e interessantes. E mais por vir, numa altura em que o Kobo terá uma revolução na forma como leio.

Sinto que disse muita coisa, mas sei que muita da frustração que um autor sente não se aqui passou. Aquela do enviar e-mails a todas as editoras e esperar por respostas que, muitas das vezes, demoram um semestre. Respostas que são sempre iguais! Não passei aqui as lágrimas, o suor. A falta de descrença. De dúvida em nós próprios. Do pensarmos que não somos bons e não queremos mais. Mas, mesmo sabendo que isso faltou, quero ouvir-vos. Quero dialogar. Sempre acreditei que os autores portugueses juntos, serão sempre mais fortes. Mas parece-me ainda, muito sinceramente, que ainda existe quem olhe de forma desdenhosa para quem publica de forma independente ou paga para publicar. E isso é triste. Muito.

10 Replies to “Ser autor em Portugal”

  1. Já me questionei se ser autor em Portugal vale a pena! Se tanto esforço e tanto trabalho valem a pena. Se não vivo numa ilusão achando que escrevo bem. As editoras vanity e a forma como trabalham conseguem destruir muitos sonhos, porque afinal o autor é só uma maneira de ganhar dinheiro. Será que a opinião que um editor de uma vanity é sincera ou é só uma opinião para captar o autor a pagar para publicar.

    Digo isto porque, no caso do meu ultimo livro, diziam que a história era boa e captava o leitor, mas depois de sair da gráfica o livro morreu para a editora e nem chegou ao mercado.

    É um cenário triste ter consciência como o mercado funciona.

    Excelente publicação, Diogo!

    Beijinho!

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    1. Se sabe bem provocar a discussão sobre estes temas, ouvir os testemunhos acaba por ser doloroso porque compreendemos que o que refletimos não é um produto da nossa imaginação.

      É devastador ter conhecimento dessas situações e da falta de humanidade e respeito que existe quer entre uma empresa, e uma pessoa, que aspira a atingir os seus sonhos com ela. Uma autêntica falta de respeito cujo dinheiro é o único objetivo.

      Muito triste esta consciência.

      Obrigado Ana, beijinhos!

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  2. E bem verdade aqui trabalhas que nem um escravo e nao recebes nada, a vida esta cada vez mais complicada e para nós (pessoas que gostam de escrever) não a espaço out sonho a seguir…

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    1. Sim. Quem escreve nunca pode ser por querer fazer “disto vida”, mas por gosto. Com sorte, e muito trabalho, pode ser que um grande grupo editorial repare em ti e não tenha medo de apostar e que tudo tenha valido a pena.

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