Entrevista ao autor Roy Dias

Quando no início do ano vos falei de novidades para a Conversa Entre Autores não estava a brincar. E aqui está a primeira: ao longo deste primeiro semestre pretendo dar-vos a conhecer alguns dos autores com quem mais tenho contacto e que me ajudaram igualmente na versão 1.0 da rubrica. Posto isto, a entrevista de hoje diz respeito ao autor Roy Dias. Tendo já publicado três livros – dois pela Amazon e em inglês -, e o terceiro em português e pela editora Cordel d´Prata, tê-lo aqui era uma obrigação. E irão perceber o porquê!

Não esperem por algo curto. É uma entrevista diferente, completa e que vos deixará apaixonados pela história, garanto-vos!

Foto por Cordel d´Prata (2018)

Roy, conhecemo-nos há já algum tempo neste mundo e ambos vamos dando os passos nesta longa jornada. Queres apresentar-te para os que nos leem?

R: Bem, aqui vai. Eu nasci no Canada e por lá vivi até aos 15 anos. Depois os meus pais decidiram regressar a Portugal (os meus pais eram emigrantes), e fui viver para uma aldeia perto de Murça. Fiz o meu secundário na cidade de Chaves e depois ingressei na Universidade do Minho onde terminei a minha licenciatura em Engenharia de Polímeros. Trabalhei pouco tempo na área, e quando surgiu a oportunidade de abrir uma escola de Inglês Wall Street English (franchise), não hesitei. Neste momento eu e os meus dois sócios (e primos) temos 4 escolas no país. Sou casado, tenho 2 filhos, e moro em Vila Verde.

O teu primeiro livro em português saiu somente o ano passado, sendo que antes publicaste pela Amazon e em inglês. Podes contar-nos com foi essa publicação de autor?

R: Foi sem dúvida uma experiencia enriquecedora. Através da tentativa e erro fui progredindo acabando por publicar 2 livros. Cometi vários erros, como é óbvio, mas acho que aprendi muito com isso. Esta experiencia permitiu-me percorrer todo o processo da publicação. A escrita, a revisão, a edição, a paginação, a formatação, a capa e o marketing. Foi mais uma vez uma experiencia enriquecedora, e embora tivesse cometido muitos erros, voltaria a fazer tudo da mesma forma. Foi uma aprendizagem.

Foram publicados dois livros da saga Aspeans, podes falar-nos dos desafios dessa série e qual foi a tua inspiração?

R: Ok, vou tentar não ser muito maçudo. Toda a minha aprendizagem em termos de escrita foram com esses dois livros. Tive que investigar e aprender a escrever um livro “Young Adult” de ficção científica. Todo o processo por mais simples que possa parecer. Tive que aprender tudo! O que é esperado de um livro de ficção científica? Tendo em conta que eu era um escritor iniciante, qual o tamanho ideal para um primeiro livro?

Em termos de inspiração sempre gostei de ficção científica e de fantasia (os meus géneros preferidos) e já tinha a noção, se um dia escrevesse um livro, seria sempre num desses géneros, mas voltando à inspiração. Quando o meu filho mais velho foi diagnosticado com síndrome de Asperger, e por sua vez o meu mais novo (existe uma forte componente genético e hereditário neste síndrome) muita coisa mudou na minha vida. Eu sendo um Aspie típico (aqui estou a estereotipar e estou a ser irónico) organizado, metódico e obcecado, quis saber tudo sobre a síndrome. Acabei por fazer parte de vários grupos de apoio no Facebook onde muitos pais desabafavam e expunham as suas frustrações. Muitas histórias de filhos a sofrerem bullying (felizmente não o caso dos meus filhos) que mexeram comigo. Crianças em que os pais organizavam festas de aniversários convidando toda a turma e ninguém aparecia. Fotos das crianças sentadas sozinhas numa sala à espera dos convidados ninguém aparecia. Essas histórias mexeram muito comigo. Eu queria expor tudo isso. Queria que as pessoas se pusessem no lugar dessas crianças, sentir o que era ser diferente, sentir o que era ser marginalizado. Somos todos diferentes mas temos todo o direito de ser tratados por igual. Esse foi sem dúvida o catalisador da minha escrita.

Indo agora para o teu primeiro livro em português: Há muito, muito mais trabalho que é feito na escrita e os leitores não veem! Podes falar-me um bocadinho do trabalho de preparação para este livro?

R: Sim! Concordo a 100% contigo! Existe de facto muito trabalho que os leitores não veem. Muita investigação! Quando surge a ideia para o livro existe um fio condutor. Tenho uma ideia flexível de toda a história, mas existem vários espaços que precisam de ser preenchidos. No caso especifico do meu livro, existem viagens no tempo, logo tenho a componente fictícia em que tenho de estabelecer regras e cumpri-las (paradoxos temporais, deformação/alteração da linha temporal etc.) e a componente histórica. O regresso ao passado tem que fazer sentido. A época, os nomes das personagens, os factos históricos (paragens dos navios, distancias, clima, paisagem, língua e dialéticos africanos). Tudo tem que fazer sentido e certos aspetos históricos têm de ser validados com a viajem do Pedro. Não pode haver incongruências. Muito trabalho de investigação.

O que é que aprendeste com os teus dois primeiros livros que sintas que aplicaste neste terceiro?

R: Ter calma, paciência e rever tudo várias vezes. Muita revisão! Ainda por cima a escrever em Português! Mas as regras mais básicas que apliquei na minha escrita (tentei aplicar) foram : 

  • info dump (evitar despejar informação),
  • show don’t tell (o “mostrar e não contar” torna a escrita muito mais apelativa. Com dizia o escritor Anton Chekhov “ não me digam que a lua brilha, mostrem-me o seu brilho a incidir sobre um copo partido” muito mais eficaz.
  • Set the scene (o montar do cenário, situar o leitor na cena pretendida)
  • Diálogos naturais, os diálogos poderão servir para fornecer informação mas tem sempre que ser naturais. As vezes surge a tentação de usar os diálogos para informar sem ter em conta que tem que ser naturais. Agora vou exagerar um pouco mas uma personagem não pode dizer:

– Olá João. Eu chamo-me Filipe e a minha irmã é esquizofrénica e acho que foi ela que matou o meu professor de matemática. Prazer em conhecer-te.

ou
– Olá, eu sou o João teu vizinho. A minha mãe é alcoólica e meu pai bate no meu irmão mais novo.

Este diálogo não é normal.

  • Frases curtas quando queremos induzir suspense.

Ok, acho que já chega.

Qual o desafio de escrever em Português?

R: Escrever em Português é muito difícil. A língua Portuguesa é muito mais rica do que a língua Inglesa, e a grande desvantagem em ser bilingue é que deixamos de ser fortes quer numa, quer noutra. Tive que dedicar-me muito mais e tive que rever muito mais.

Sempre gostei muito de fantasia. Foi o que me fez amar o mundo dos livros. Desta forma tenho de te perguntar: porquê fantasia? Quais os desafios com que te deparaste?

R: Assim como tu, adoro a fantasia e a ficção científica. Foi com esses géneros que me tornei num leitor. Os desafios serão sempre estabelecer regras e cumpri-las. Tudo tem que fazer sentido. Já não me recordo de quem o disse, mas esse autor disse que um escritor estabelece as suas próprias regras, e o leitor aceita. Por mais ridículas que as regras sejam. Desde que sejam sempre cumpridas. O escritor não poderá ficar preguiçoso e quebrar uma das suas regras porque lhe dá jeito. Um exemplo que esse autor usou foi “ se eu estabelecer que para viajar no tempo tenho que montar um pónei durante uma lua cheia, os leitores aceitarão, desde que no capítulo seguinte não viaje no tempo montado num cavalo durante a lua minguante.” .

Cordel d´Prata (2018)

Com estas perguntas, o que podemos esperar desta narrativa?

R: Bem, eu espero ter conseguido uma narrativa fluida, simples e cativante. Eu sou apologista de que a narrativa deve ser simples, fluida, direta e cativante (no meu caso, livro infanto-juvenil de fantasia) porque acho que esse tipo de narrativa é a mais adequada ao género. O leitor alvo não estará com certeza à espera que eu utilize 20 páginas para descrever uma árvore. Existe obviamente géneros para isso, mas não o infanto-juvenil.

E foi-te difícil? O que é que foste sentido enquanto escritor à medida que ias delineado a história?

R: Bem, a escrita para mim é sempre um desafio, e houve sem dúvida momentos difíceis. Eu tenho sempre a história delineada, o tal fio condutor, mas uma coisa que me dá gozo é verificar que por vezes a história segue o seu próprio caminho. 

Que temas juvenis podemos encontrar nesta história e foram o teu foco?

R: A personagem principal é uma criança estranha (Asperger’s) que sofre bullying na escola, e para além desse tema, (criança diferente que sofre bullying e que é forçado a tornar-se herói) o livro fala de amizade, tolerância e aceitação…..sem esquecer as viagens no tempo e de toda a sua magia.  

E o que sentiste enquanto leitor ao ler os diversos rascunhos do manuscrito? Que receios tiveste?

R: Os meus receios foram sempre com o Português (construção da frase etc.) e com as incongruências.

Qual foi a personagem que mais gostaste de construir e aquela que de quem mais sentes saudades?

R: As minhas duas personagens favoritas (tenho que referir as duas) foram sem duvida o Pedro e a Mariana. Tendo em conta que este livro é uma saga, ainda não tenho saudades.

Alguma das personagens são baseadas em pessoas que conheces?

R: Todas as minhas personagens são um mix de pessoas que conheci ao longo da vida. Muitos conseguirão identificar alguns, acho eu!

O final que escreveste foi aquele que sempre planeaste? Quando começas a escrever, tens sempre o final delineado ou manténs algumas possibilidades que dependem, por vezes imprevisível, do desenrolar da história?

R: Sim, o final que escrevi foi sempre aquele que planeei. Apesar de ter tido algumas modificações e de ter algumas personagens a surpreender-me ao longo do percurso, o fim manteve-se. Mesmo continuando a saga, eu já sei como tudo terminará.

Mudavas alguma coisa na história das personagens ou estás feliz com as decisões que elas, tu, tomaram?

R: Para já estou feliz! A Mariana surpreendeu-me logo de início tornando-se numa personagem fulcral (não estava programado), mas valeu a pena!

Eu sou da opinião de que qualquer produtor de arte tem sempre receio de um certo tipo de pergunta que possa surgir por parte de quem a interpreta. Concordas? Tens alguma pergunta que achas que poderá advir desta história?

R: Tenho algum receio em termos históricos (embora tenha investigado bastante e me sinta seguro) e de eventuais discussões sobre viagens no tempo. Quando apresentei o meu livro numa escola em Chaves tive uma discussão construtiva com um aluno sobre viagens no tempo (paradoxos e realidades paralelas) que me pôs em sentido! Até tenho pena não ter ficado com o contacto dele para que me ajudasse nos livros seguintes.

Como classificas esta história na tua vida? O que é que ela te deu enquanto pessoa?

R: É sempre uma realização pessoal. Quase um dever cumprido. Mas também me trouxe exposição (algo que pessoas com Asperger não gostam muito). Neste momento a minha obra está disponível para que qualquer pessoa a possa criticar!

E enquanto escritor?

R: Uma nova etapa, com novas portas, que de repente se abriram.

A tua obra tem quase um ano, pelo que tenho de perguntar: o que é que os leitores mais te dizem a respeito dela?

R: Já tive bastante feedback em relação à obra, e os comentários mais comuns foram: escrita simples, fluida e muito cativante. Tudo a um ritmo alucinante.

Sendo uma saga, já estás a trabalhar no próximo?

R: Deveria estar, mas não. Sou muito preguiçoso! Mas prometo começar em breve!

Que comparação fazes da publicação em EBOOK e em livro físico?

R: Acho que o EBOOK é o futuro, só que ainda existe muita inercia em relação ao livro eletrónico. Eu compreendo os argumentos que defendem que o livro físico é muito mais apelativo (contacto, cheiro, experiencia) mas vivemos numa era digital, em que tudo está a uma distância de um click. Sem esquecer a importância dos recursos naturais!!!

Como olhas para o nosso mercado agora que publicaste em formatos e para públicos tão distintos (por causa do idioma)?

R: O mercado Português é mais pequeno tornando-o mais acessível. O que eu quero dizer com isto é que embora existam muitas plataformas e meios de publicação nos Estados Unidos, existem por sua vez, muitos mais livros publicados. Para um autor sobressair nesse meio é muito difícil. Em Portugal o mercado é pequeno, e embora não seja fácil publicar, a partir do momento que o consiga, será mais fácil a sua divulgação.

Agora vamos a algo mais rápido para todos te conhecerem. Preparado para umas respostas rápidas e curtas?

Sítio favorito para escrever?

R: Mesa da sala de jantar.

Escrever com música, ou sem?

R: Sem música mas com a televisão ligada para me fornecer ruido de fundo.

Livro favorito?

R: Difícil escolher, mas terei que dizer a trilogia do Senhor dos Anéis.

Filme ou série predileto?

R: Filme: Senhor dos Anéis, Série: A Guerra dos Tronos

Momento favorito desta história?

R: Batalha com o feiticeiro Zaido.

Momento que mais trabalho te deu escrever?

R: Toda a parte histórica. Datas, paragens, razões das suas paragens.

Tens uma nova página em branco para começares a escrever uma nova história. Qual o género literário que podemos esperar?

R: Bem, sem contar com esta saga, eu gostaria de escrever um livro de fantasia ou de ficção científica em que criasse um mundo novo. Novas terras ou novos planetas.


Obrigado Roy. Foi um gosto falar contigo!

Cordel d´Prata | Wook | Bertrand

3 Replies to “Entrevista ao autor Roy Dias”

  1. Olá, Diogo! Olá, Roy!

    Gostei muito do que li, gostei de perceber que este livro não é só mais um livro infanto-juvenil, mas um livro que explora um tema tão importante: a diferença. Nesta faixa etária, as crianças/pré-adolescentes têm dificuldade em aceitar a diferença, em compreendê-la essencialmente. É crucial envolver a imaginação, a magia, a ficção científica (aquilo de que eles gostam) com temas tão pertinentes. Cada vez mais, a literatura é uma das maiores ferramentas para transmitir ensinamentos e “mostrar” a realidade.
    Um livro que certamente quero ler!
    Parabéns, Roy!

    Liked by 1 person

    1. Obrigado, Lauren!
      Acho a temática tão importante, especialmente pelas vivências verídicas, que não falar dela seria um crime contra o que a literatura pretende sempre: refletir. Ajudar e, quiçá, provocar a mudança. A imaginação tem um papel fundamental no que é metermo-nos no lugar dos outros. Espero que este livro ajude os jovens nessa compreensão!
      Beijinhos

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