Estamos a tornar-nos num círculo? – Crítica a “O CIRCULO”

Quando saíram as primeiras notícias que a minha amada Emma Watson iria estar nesta adaptação com o Tom Hanks, o meu coração dizia: vai ver, vai ver. Com isto, o filme estreou em 2017 e, atendendo a que todas as críticas eram negativas, eu fiz aquilo que mais critico: deixá-lo para depois. E assim foi… até o ver no TVCine e o agarrar com toda a força!

Poster do filme “O Circlo” (STX Films e Europa Corp.)

Como o filme não está no cinema vou tentar resumir a história: a protagonista vive num emprego precário e tem o pai em estado avançado de Esclerose Múltipla. A filha procura assim um emprego melhor e, com a ajuda da sua melhor amiga, esta consegue ter um trabalho na melhor empresa do planeta: O Círculo. Com isto esta rapariga deixa os pais indo para esta empresa toda ela tecnológica. Após disto percebemos como a filosofia da empresa é “partilhar é importar”, em que damos conta de que todos os trabalhadores, na verdade, não têm filhos e partilham literalmente tudo o que fazem. Para além do horário de trabalho, existem centenas atividades ao fim-de-semana em que os membros se juntam para partilhar tudo na rede social da empresa e, com isto, crescer na “influência”/socialização que têm. Vão acontecendo algumas conferências, em que a primeira dá conta de uma câmara revolucionária. Esta é pequena, sem fios, e transmite por satélite em tempo real. Estando ela em todo o lado, pode ver, saber e encontrar tudo e mais alguma coisa. Com uma premissa boa a protagonista vai sendo, aos poucos, engolida para esta realidade. Em especial quando a empresa ajudou o seu pai ao melhorar as suas condições de saúde. Isto, claro, após ela beber um soro que juntamente com uma pulseira, davam conta de todos os seus dados corporais para os servidores da empresa (e para informação pessoal).

Nesta altura o fundador da empresa, que descontente com o rumo da empresa decidiu abandonar a ribalta e o trabalho em si, estando na mesma presente na sede mas sempre escondido ao olhar dos trabalhadores, mostra à personagem da Emma, a Mae, os servidores do Círculo e o que a empresa realmente quer: acabar com a privacidade. E mesmo que queiram que tudo o que os políticos fazem seja tornado público, a privacidade dos utilizadores regulares começa também a ser posta em causa à medida que a rede social da empresa cresce. Sendo até possível votar, por meio da rede social, nas eleições, ou fazer os pagamentos das taxas anuais governamentais. Resumidamente: um grande controlo que começa a surgir, aliado a um desespero da protagonista em não saber bem lidar com isto, já que concorda com o potencial da tecnologia, mas, ao mesmo tempo, a reprova.

À medida que a popularidade dela cresce, a mesma é convidada a “ficar transparente”, sendo a primeira da empresa a andar com câmaras e as a ter em toda a casa, que transmitem o dia dela para milhões. Após isto, é apresentada uma nova tecnologia que permite, através das pessoas que têm a rede social, encontrar pessoas desaparecidas ou criminosos fugidos. Quando parece tudo bem, eis que existe a ideia de tentar encontrar um amigo do qual ela se foi afastando pelo trabalho que tinha. Resultado: ele acaba por morrer pelo excesso de pessoas com câmaras e telemóveis que o estavam a tentar encontrar. Um acontecimento dramático e que levou a um final surpreendente. A Mae ligou para o fundador pedindo ajuda e este descobriu assim os podres dos que estavam a comandar a situação. Resultado, jogou o jogo deles: numa conferência em direito, convidou-os a serem também transparentes e a terem todas as suas informações na Internet. Quer pessoais, quer aos seus e-mails secretos, e super secretos, e por aí fora. Quando pensávamos que o filme acabaria com um momento em que a empresa acabaria, a Mae sugere tornar a vida de todos os que têm a rede social na empresa, transparentes. Com isto deixam de haver segredos, corrupção, e por aí fora, acabando-se com a privacidade.

Sei que no resumo que voz fiz faltam ainda grandes partes da história e que ajudam melhor a percepcionar tudo isto. Mas com isto procuro que vocês próprios vejam o filme e se perguntem: será que estamos nós, na nossa sociedade, a cair num círculo vicioso? A querer acabar com a privacidade ao queremos partilhar tudo e a toda a hora? Eu próprio me obriguei a fazer uma introspecção e dado conta que sim, uso muito o telemóvel e para falar em parte com amigos de Leiria ou Lisboa já que ainda não tenho um grande leque de amizades no norte. Todavia sei que também isto é uma desculpa para o vício. Posto isto, até que ponto é saudável? E mais importante: num ano em que se discutiu com força a lei da proteção de dados e as fugas de informação da maior rede social do mundo, estará a nossa democracia de liberdade em risco por virmos a perder o nosso direito à privacidade?

Algo que também poderemos questionar é o que é feito no próprio filme: se a informação sendo um direito, aliado à educação, será que se soubéssemos tudo e a toda a hora, haveria menos miséria no mundo? Até que ponto é invadir a privacidade? Até que ponto é que não deveria haver privacidade? Será que se os nossos políticos fossem completamente transparentes haveria menos corrupção e as nações seriam mais justas e prontas a viver numa utopia? Ou será que isto tudo são questões que acabaram com a nossa própria humanidade e o que é ser Humano? 

Eu adorei o debate interno que este filme me deu, e arrependo-me de não o ter desfrutado numa sala de cinema, já que o thriller inerente a ele é crescente. Inesperado! Posto isto, já viram o filme? O que acharam? O que acham destas questões por ele levantado?

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