O Direito a Brincar

São muitas as vezes que me dou conta de pensar nisto, sendo que em cada uma delas, surge-me sempre uma grande revolta. Por isso, hoje, no Dia Internacional dos Direitos das Crianças, achei por bem desabafar com vocês todo o turbilhão que vai dentro de mim.

Nos dias de hoje assisto a uma sociedade crítica. Que não consegue reagir em concordância quando outros dão a sua opinião. E é certo que estamos numa sociedade de direito democrático, mas quando as opiniões que se manifestam nas redes sociais e que depois transgridem para a vida corrente não são fundamentadas, críticas ou mesmo construtivas, parte de mim quebra-se. Quando o assunto são as nossas crianças, a juventude, ainda mais.

Esta revolta aprece numa altura em que a sociedade, as famílias, parecem robôs. “Controlados” pelos algoritmos de uma vida de trabalho, os pais de hoje são, muitas das vezes, vítimas de um sistema assente em casa-trabalho-casa. Neste percurso, muitas vezes aborrecido e traumático pelo trânsito da vida corrente, os filhos aparecem metidos nos espaços livres. Como se de um hobby fossem. E por muito que a culpa não seja propriamente dos pais, tenho de acrescentar à equação o factor escola ou atividades extra-curriculares que acabam por tirar às crianças o direito que estas têm a brincar. E, mais importante, o de brincarem com os seus pais. Assim, a juntar aos pais muitas das vezes frustrados por um ambiente de trabalho hostil neste tipo de questões, ou simplesmente stressante, vem ainda o facto de terem de passar o tempo com os seus filhos a fazer trabalhos da escola. As noites assim se passam entre um olhar ao relógio para ver a hora certa para a criança ir dormir, e o número de TPC´s que o filho tem ainda por resolver.

Após todas estas conversas interiores que tenho, pergunto-me sempre: será que não podemos replicar o que se faz em certos países europeus? Em que pais e crianças saem cedo do trabalho, da escola, para conviver? Falar? Brincar? VIVER? Será que custa assim tanto? Em Portugal sei que sim, já que até o facto de as crianças entrarem cedo para a escola serviu de desculpa para não se abolir a transição da hora duas vezes ao ano. Claro que quando falo em brincar falo dos momentos quer com amigos, quer sozinhos. Quer com brinquedos, um animal de estimação, quer com base na imaginação, na rua, no campo, ou por toda a casa. Será que se percebe as repercussões que esta ausência pode ter para o futuro de uma criança? Para a própria construção e manutenção da sociedade? 

Fico revoltado com isto. Em como parece que o brincar é esquecido. E pior: que o facto de alguém dizer que quer brincar, parecer ser catastrófico quando essa criança deveria estar era ou a ler, ou a estudar. Entristece-me como não se perceba a importância do brincar como elemento não só de descontracção e, muitas das vezes, de socialização, assim como de construção pessoal, identitária, do estimular da imaginação e, por fim, do afinamento do sentido crítico.  É que com isto surge uma sociedade que não tem problemas em dar aos filhos um telemóvel ou tablet para o manter entretido (mais alguém que fica horrorizado ao ver pais em restaurante em que o filho só brinca em aparelhos tecnológicos??). O próprio adulto parece não saber já o que é brincar, ignorando, tendo vergonha, de uma sociedade que critica o lado criança que um pai ou mãe possa ter. E isso é tão, tão triste! Mas no meio disto tudo, surge outra questão. E, verdade seja dita, uma igualmente importante: será que os nossos adultos (quer no agregado de uma criança, quer numa escola, entidade, ou associação) sabem sequer o que é brincar?

3 pensamentos sobre “O Direito a Brincar

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