Conversa Entre Autores #3 – O Momento de Criação

Olá leitores. Como estão?

Espero que bem. Que o passado mês tenha sido recheado de aventuras e momentos inesquecíveis! Hoje estou aqui para dar continuidade à rubrica começada no passado mês de setembro. E se na sua primeira publicação contei com duas autoras, nesta tenho de agradecer à Paula Araújo, Orquídea Polónia , Letícia Brito, Roy Dias, Sofia Cortez e à Sara Ascensão! Mas que rubrica é esta?

Aliado à leitura, surgem ideias. Ideias como esta que vos estou a apresentar. E que ideia “brilhante” é essa Diogo, que nos queres apresentar?, podem perguntar vocês. Pois bem, és amante da escrita ou tens simplesmente curiosidade no processo de criação de uma história? Tens perguntas que, por vezes, são tudo menos oportunas para um escritor? Ora bem: esta é a rubrica que procuras!

Mensalmente, eu e um conjunto de autores portugueses reuni-mos virtualmente para debater algumas das questões que mais nos afligem no que toca à escrita. Desde ao processo de criação, até àquilo que nos vai na mente quando acabamos de escrever uma história.

Estão assim prontos para a pergunta deste mês?

(tambores)

Que trabalho fazem antes de começarem a escrever a história? Como se organizam? Quais as vossas técnicas?

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Aquilo que eu tenho feito é: procuro ter um resumo de toda a história. Quer seja de forma mental, quer escrita. Após isso, começo a desenhar um mapa para os principais eventos. No que toca a pesquisas, por vezes isso é possível e acontecer antes da história no seu geral. No Esquecido aconteceu eu perguntar a uma amiga minha que estava a tirar medicina e me ajudou em algumas questões. Também acontece falar com outros leitores e autores de forma a eliminar qualquer bloqueio ou incongruência que possa existir na ideia em si antes de começar a escrever

42576327_10211627088626972_3501084213862465536_oA autora Orquídea Polónia também se assume adepta do desenho de toda a história. “Esquemas, gosto de esquemas! De personagens, do que se passará por capitulo, parte do livro, cronograma, etc…”.

E é engraçado perceber como isto é mesmo algo transversal a todos os autores. Confesso que nem sempre fiz isto. O meu primeiro romance era tudo mental. Tinha tudo anotado na cabeça. Só depois dele é que investi a sério na organização. Em me comprometer em elevar a qualidade do meu trabalho.

41549987_2125637404114335_346703899165458432_oDisse a Letícia Brito, dona do blog Minha Querida Isabel, e autora do recém publicado “O Dia em Que Chegaste”: “Quando a ideia surge, delineio a história de forma mental. Às vezes ainda tento fazer esquemas/resumos para me ajudar na escrita, mas mas ao contrário do expectável, essa organização toda acaba por me atrapalhar, e portanto, limito-me a escrever.” , e isto é algo que concordo imenso. Tenho sempre medo que tanto esquema me atrapalhe o julgamento pelo que sou cuidadoso em fazê-lo!  “Quando a história requer pesquisa – o que acontece quase sempre -, faço as pesquisas antes de começar a escrever ou mesmo durante a escrita. O que mais gosto na escrita é a liberdade que ela me dá, acho que é por isso que não faço resumos/esquemas antes de começar, aquilo que a história me exige está tudo na cabeça e deixo fluir. Quando, entretanto, surgem incongruências na história, paro, escrevo o que está mal e o que preciso melhorar, e volto a pegar na história e a fazer as alterações necessárias. Liberdade criativa. Sinto que é esse o meu método. Escrever e escrever. Se precisar organizar tudo antes de partir para a escrita em si, prefiro desistir.”, terminou ela. Aqui confesso que difere do meu método que é afastar por completo da história por uns meses de modo a perceber como fazer as coisas. Em especial porque, na sua maioria, só detecto estas questões quase no final da história. Claro que depende sempre do trabalho. A Letícia também referiu o como a tipologia da história leva a organizações diferentes “O meu último livro é dividido entre o futuro (2017), o passado (2000) e o presente (2010), o que me obrigou a ter um cuidado maior de modo a que tudo correspondesse o máximo possível à realidade. Mas sem entrar em grandes esquemas, porque isso, tal como referi em cima, faria com que desistisse de escrever…”.

41824659_1947458638651222_3169889905459331072_oQuem depois se juntou à conversa foi o autor estreante na literatura em português, Roy Dias, que publicou recentemente o livro “Pedro, o Viajante no Tempo“: “Eu suponho que faço um mix entre o que disse a Orquídea Polónia e o que disse o Diogo e a Letícia. Eu gosto de esquematizar tudo antes de escrever, incluindo toda a pesquisa necessária. Tento dividir a história por secções (idealmente capítulos) e conforme vou escrevendo, vou-me deixando levar pelo enredo e adapto os esquemas em conformidade. Eu tenho um pavor a incongruências o que me leva a esquematizar sempre tudo, e como este meu livro trata de viagens no tempo (passado, futuro e presente) tudo têm que bater certo. Mas não fico refém dos meus esquemas. Deixo que a história siga o seu caminho. Mesmo em termos de personagens.”

Incongruências foi algo que aprendi bastante com o meu primeiro romance publicado, especialmente por saber todo o trabalho que existe no processo de revisão para as corrigir. Algo que implica, muitas vezes, a reescrever ou apagar por completo, passagens ou diálogos no texto. No entanto, a Paula Araújo, autora do livro “O Trilho da Rata Cega“, deu também da sua justiça:

39883153_260517071263984_3493353234074959872_n“Ora bem, eu penso no tema geral, nos assuntos, nas personagens, no espaço, no tempo, etc., e vou cozinhando tudo, sem esquemas. Apenas tomo pequenos apontamentos quando tenho datas, ou fazer analepses e prolepses. À medida que a narrativa vai avançando e vou construindo uma história, adoro interromper a narrativa com outras histórias, para o leitor perder um pouco o fio à meada. A ideia é que não se canse e a leitura o estimule. A propósito… há autores que escrevem muito, ou quase tudo à mão, eu não. Uso o computador e, rapidamente, corrijo, procuro o excerto à frente, ou recuo no enredo. É a minha forma de me organizar. Escrevendo, escrevendo, quase sem parar. Debitando ideias para o texto e corrigindo outras, para as aprofundar, ou mesmo retirar. Não faço resumos, ou sinopses da(s) história(s) que pretendo escrever, passo mesmo logo à ação.” – Confesso que também escrevo tudo no computador, até resumos, e só escrevo à mão pequenos apontamentos ou ideias práticas. Mesmo assim, noto como escrever num caderno ajuda-me muito mais a não perder o fio à meada quando temos tanta história em paralelo ou datas. Algo que nos permite também criar presságios correctos para eventos futuros. 

29351822_1718714468192308_5077447730867183223_oA Sofia Cortez, autora do livro “Devemos Voltar Onde Já Fomos Felizes“, publicado este ano, e do blog O meu Serendipity: também não ficou de fora, acrescentado que “Não tenho grande disciplina nisso. A ideia surge e tomo nota ou num caderno ou nas notas do telemóvel. Depois passo para o PC e ai é que as coisas começam a ganhar forma. Ainda não escrevi grandes enredos, só escrevo contos, crónicas e textos curtos, o que torna as coisas mais fáceis. Faço muitas pesquisas no Google sobre coisas que não domino e acho que ficariam bem com a personagem, também pergunto a quem sabe sobre temas que pretendo desenvolver. Gosto de estudar e aprender sobre coisas novas não me deixo prender com detalhes, a história vai mudando consoante o desenvolvimento. Gosto dessa liberdade.” . Aqui temos algo ainda não mencionado, que é o facto de termos a pesquisa que está sempre em estreita relação com a organização que é feita na história. Algo que depende, sem dúvida, do que temos em mente e dos fins que queremos obter.

30124116_775543285968207_126081144385961984_oAlgo que me revejo imenso é no comentário que a Sara Ascensão fez na conversa, em que “Quer seja uma história ou um poema, começa sempre da mesma maneira: talvez uma frase, talvez um conceito ou um pensamento que fica a rondar na minha cabeça constantemente, e só para quando eu passo para o papel. Acho que por isso é que escrever é uma necessidade tão grande para mim.
Quando a obra é grande, costumo planear cada detalhe de cada cena que vou escrever, faz-me sentir menos perdida. E se é no capítulo X que eu vou poder aliviar finalmente a carga de pensamentos que me assombram, então escreverei tudo o que vem antes ansiando por esse momento.”. Como é tão boa aquela sensação de chegarmos ao capítulo que culmina toda a tenção dos anteriores, para descarregar tudo aquilo que nos levar sequer, em primeiro lugar, a escrever a história. É sem dúvida também complicado, para mim, controlar esta espera com cada capítulo que antecede o ou os momentos de revelação. Têm de ser feitos com calma, cabeça e muita paciência.

Espero que tenham gostado da edição deste mês tanto quanto eu. E por mais que sejam coisas que muitos já sabem, a verdade é que ao conversar com outros autores, temos também um diferente tipo de apoio e motivação para continuar o trabalho.

Não podia deixar de terminar esta publicação sem vos convidar a ingressar na próxima conversa. E como?

Pois bem, se és autor, e queres partilhar as tuas ideias connosco, ou és leitor, e queres ter resposta a algumas das perguntas relacionadas com o processo de escrita ou editorial, envia um e-mail para diogoafsimoes.leitores@outlook.pt e tudo ficará tratado!

Espero por vocês! 😀

Beijos e abraços,

Diogo

Um especial agradecimento aos autores participantes pelo apoio a esta ideia e por darem um bocadinho do seu tempo para esta partilha. Algumas das conversas foram reestruturadas visto terem sido originalmente escritas numa plataforma  online. Os autores expressam igualmente os seus pontos de vista, sem qualquer tipo de influência externa aos mesmos.

5 Replies to “Conversa Entre Autores #3 – O Momento de Criação”

  1. Quando me surge uma ideia para uma história começo por resumi-la e por resumir como quero que as personagens sejam mentalmente e inicio o processo de escrita à mão. Depois passo para o computador onde vou delineando a contextualização do enredo e afins detalhes. Não costumo fazer esquemas e cronogramas.

    Parabéns pela rubrica bastante interessante. 🙂

    Liked by 1 person

    1. Sem dúvida que uma ideia e método muito interessante. O fazer esse processo à mão e só depois avançar por algo mais “concreto”. Gostei muito! 😀

      Muito obrigado pelas palavras! Se quiseres participar fico feliz em tal! Beijinhos

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