Conversa entre Autores #2 : As Personagens

Olá leitores. Como estão?

Espero que bem. Que o passado mês tenha sido recheado de aventuras e momentos inesquecíveis! Hoje estou aqui para dar continuidade à rubrica começada no passado mês. E se na sua primeira publicação contei com duas autoras, nesta tenho de dar as boas-vindas (e agradecimento) à Paula Araújo, Letícia Brito, Sofia Costa Lima, Sofia Cortez e à Sara Ascensão! Mas que rubrica é esta?

Aliado à leitura, surgem ideias. Ideias como esta que vos estou a apresentar. E que ideia “brilhante” é essa Diogo, que nos queres apresentar?, podem perguntar vocês. Pois bem, és amante da escrita ou tens simplesmente curiosidade no processo de criação de uma história? Tens perguntas que, por vezes, são tudo menos oportunas para um escritor? Ora bem: esta é a rubrica que procuras!

Mensalmente, eu e um conjunto de autores portugueses reuni-mos virtualmente para debater algumas das questões que mais nos afligem no que toca à escrita. Desde ao processo de criação, até àquilo que nos vai na mente quando acabamos de escrever uma história.

Estão assim prontos para a pergunta deste mês?

(tambores)

Como criam as personagens? Quais os dilemas e as maiores dificuldades? E o que vos dá mais prazer?

cropped-dsc05656.jpgEu, e em jeito de começar a conversa, tenho de dizer que a minha maior dificuldade é em nomes. Algo que já tinha partilhado no Exclusivo do Esquecido: PARTE II – A HISTÓRIA E AS PERSONAGENS.  Adoro observar extensas listas e encontrar o nome que julgo assentar na personagem. Já os apelidos é um encargo nos trabalhos.
Adoro a criação da personalidade e vida passada da personagem, algo que tenho tentando debruçar-me cada vez mais e transpor isso em ações na história. Confesso que me auxílio de alguns livros de psicologia e na vida corrente para isso. O que mais adoro, confesso, é matá-las! Um prazer hediondo mas que me dá muito prazer planear. Todavia, algo que surge com isto é a dificuldade que é despedir-me das mesmas. Algo partilhado pela escritora Sara Ascensão, e que se encontra a escrever neste momento o seu primeiro thriller:

30124116_775543285968207_126081144385961984_o“Acho que escrever personagens é a parte mais entusiasmante da escrita. Percebi, à medida que fui escrevendo que a única maneira de os personagens parecerem pessoas reais, é tratá-los como tal. E isso implica não supor que os conheço bem desde a primeira página. Por vezes uma personagem que pensei que viesse a ser rebelde e problemática, acaba por se mostrar íntegra e bondosa (ou vice-versa). É libertador deixá-los desobedecer-me e surpreender-me, ganharem quase vida própria. Fico com vontade de os pegar ao colo, abraçá-los, dizer-lhes que vai ficar tudo bem… Mas aí eu estaria a mentir.
Eu sou o tipo de escritora que seria classificada como um “génio do mal”, porque adoro colocar os meus personagens em situações complicadas, de os fazer confrontar as suas falhas, de os levar à insanidade. Curiosamente, sofro se os tiver de matar, na medida em que tal significa uma despedida. No final de contas é uma questão de pensar que essa despedida tem de necessariamente acontecer para que eventualmente outras pessoas conheçam os personagens e vivam com eles as suas histórias (que eu creio que merecem ser partilhadas)”

A autora de Seja o que For o Amor e Teremos Sempre Londres, e blogger (A Sofia world) Sofia Costa Lima partilha do mesmo, já que ”

39289214_2054054894604721_3060880452916084736_o.jpg“Eu demoro sempre um bocadinho a escolher nomes de personagens e normalmente, quando decido o nome e apelido, pesquiso no Google o nome – há uns tempos criei uma personagem com nome de um psicopata e não queria essa ligação. Costumo decidir o básico antes de começar a escrever (nome, idade, função na história, características principais), mas deixo sempre alguma margem para características que precisem de surgir à medida que a história avança porque gosto de ter essa liberdade de não decidir logo tudo no início. Acho que aquilo de que mais gosto é de criar a vida passada das personagens, mesmo que alguns detalhes não entrem na história são importantes para saber que personagem é aquela, como se tornou na “pessoa” que é e que momentos do passado podem ter impacto no presente dela.”

29351822_1718714468192308_5077447730867183223_oOu seja, é algo complexo! E tem de o ser! As personagens são o que moldam a história e vice-versa. São elas que vão ter o poder do leitor se emocionar ou revoltar. De amar ou odiar. Algo também refletido pela Sofia Cortez, autora do livro “Devemos Voltar Onde Já Fomos Felizes“, publicado este ano, e do blog O meu Serendipity:

“Quando penso ou imagino a história, primeiro penso na história no todo… por vezes a coisa muda ao longo do processo da escrita… porque faz mais sentido ou porque puxa para outro desenvolvimento. Os nomes ganham forma com a história, mas nalguns casos, mudam várias vezes… até sentir que são os certos, que é a história daquele nome para aquele personagem. Sigo também um bocadinho a ideia do Diogo, pelo significado dos nomes ou até pela altura do ano em que imagino ter nascido…ou seja pelo signo solar, traço um perfil psicológico pelo mapa astral, que é uma coisa que adoro e estudo.”

A Letícia Brito, dona do blog Minha Querida Isabel, e autora do recém publicado “O Dia em Que Chegaste” após a promoção do seu livro, deixou também a sua reflexão. De como as nossas vivências condicionam personagens que, tantas vezes, são diferentes de nós:

41549987_2125637404114335_346703899165458432_o“Quando crio as personagens, tenho bem delineado à priori, a sua função na história. Mas vou construindo-as à medida que vou escrevendo. Gosto muito de criar o passado das personagens, porque acredito que nós somos a consequência das escolhas que fizemos no passado, então isso ajuda-me a definir o seu lugar na história e o seu presente, na medida em que tal como nós, as personagens precisam disso para amadurecerem e se moldarem à narrativa. Os nomes das personagens deixo que surjam naturalmente, deixo que seja a imaginação a ditar os seus nomes, curiosamente, isso têm-se revelado um ótimo exercício, pois após escolher os nomes, pesquiso sempre os seus significados e origens e por coincidência – ou destino – os nomes retratam as personalidades das personagens.”

A complementar a ideia começada pela Sara e por todos os outros autores, está a questão da vida própria que as personagens ganham:

“O que mais me dá prazer é o facto de que, pontualmente, uma ou outra personagem que delineei ganha “vida própria”, isto é, vai mudando o rumo da história, exigindo mais atenção… E o que me dói mais é a despedida, quando chego ao fim da história e me apeguei de tal modo a determinada personagem que adoraria transportá-la para a vida real.”

39883153_260517071263984_3493353234074959872_nA Paula Araújo, autora do livro “O Trilho da Rata Cega“, também deu o seu contributo e reflexão,  já que as suas “personagens surgem da necessidade do enredo do romance ou do conto, ou seja, determino quem vão ser as principais, as secundárias, logo no início, quando estou a construir a história. Em relação aos nomes não tenho qualquer dificuldade. Confesso que tenho um leque imenso de escolhas nas minhas turmas todos os anos, mas, por vezes, crio nomes engraçados, como o do Zé Zurro, Adoro fazer analepses e prolepses na narrativa.”

No que toca a matar as personagens, a Paula partilha outra filosofia, já que “ao contrário do Diogo detesto matar as minhas personagens, mas, às vezes, acontece, mas o tema da morte e da perda estão quase sempre presentes nos meus textos, porque me marcaram profundamente na infância.”

Eu confesso que em todos os meus livros tenho sempre um desfecho praticamente desenhado na cabeça. Todavia, e como refletido por estas duas autoras, surgem diversos momentos na história ou na nossa própria vida, que nos levam a rumos completamente surpreendentes! Com isto, vamos vendo as personagens cada vez mais como nossas. Como filhos. Dizia já a Sofia Costa Lima no meio da conversa:

“Eu tenho uma grande paixão por algumas personagens que criei precisamente por ter criado uma história tão detalhada que era impossível resistir-lhes! Na última história que escrevi uma das personagens principais esteve uns quantos capítulos em que era suposto ser personagem secundária, sem grande história, e com mais características negativas do que positivas. Até que percebi que gostava demasiado dessa personagem e mudei a personalidade dela e o papel dela na história.”

Todavia, e das coisas que sempre quis perguntar a qualquer escritor foi: com toda esta paixão, já fizeste alguma alteração drástica? Eu no Esquecido dei sem dúvida um grande foque ao Ricardo após perceber como funcionava a personagem para a história. Já no meu primeiro livro, as personagens secundárias ficaram tão marcadas em mim aquando do momento de escrita, que acabei por lhes dar o valor preciso para a história já construída. Algo também feito pela Paula “Sou também adepta da construção do final da história.” Todavia, por vezes torna-se complicado! Impossível de fazer, como no manuscrito que finalizei há umas semanas. A Sofia Costa Lima também o diz: “Nunca fiz mudanças drásticas em momentos mais avançados da história. No máximo nas 50 primeiras páginas. Com características mais pequeninas não me faz tanta diferença.”

Foi sem dúvida uma conversa muito interessante e que me enriqueceu bastante enquanto autor ao ver como cada um de nós cria e cuida das suas personagens. Em suma, temos todos estilos tão diferentes de vida e de escrita, e cruzamo-nos em como criamos, cuidamos e delineamos o futuro das personagens que chegam até vocês! Um trabalho gigante, sem dúvida. Pensamos não só no futuro de quando o leitor começa a ler sobre uma determinada personagem, mas também no seu passado e presente. Um que está, muitas das vezes, presente na história. De forma escondida por meio de presságios que só o trabalho conseguiu permitir. Algo que é aperfeiçoado na “pós-edição”.

Não podia deixar de terminar esta publicação sem vos convidar a ingressar na próxima conversa. E como?

Pois bem, se és autor, e queres partilhar as tuas ideias connosco, ou és leitor, e queres ter resposta a algumas das perguntas relacionadas com o processo de escrita ou editorial, envia um e-mail para diogoafsimoes.leitores@outlook.pt e tudo ficará tratado!

Espero por vocês! 😀

Beijos e abraços,

Diogo

 

Um especial agradecimento aos autores participantes pelo apoio a esta ideia e por darem um bocadinho do seu tempo para esta partilha. Algumas das conversas foram reestruturadas visto terem sido originalmente escritas numa plataforma  online. As autoras expressam igualmente os seus pontos de vista, sem qualquer tipo de influência externa aos mesmos.

2 pensamentos sobre “Conversa entre Autores #2 : As Personagens

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