(E NÃO) ERA UMA VEZ

Bem, tentei por fazer aquilo que deve ser mais difícil: pegar numa história verídica, algo que é o dia a dia de muitas pessoas, incluindo pessoas conhecidas pela minha parte , e mostrar-vos um bocado como é ao pegarem factos reais, misturados depois, claro,  alguma ficção. Espero que gostem desta “pequena estreia”.

e não era uma vez

Era uma vez, um homem chamado… Não!
Não, não e não!
E era isto! A minha vida não passava disto mesmo! E era essa a questão de todos os meus problemas. Aqueles que me faziam chegar a casa e encontrar a minha cama como aconchego para algo que apenas eu conseguia compreender.
A minha vida não era feita de “Era uma vez”… Não era “apenas uma vez”… era todos os anos, todos os meses, todas as semanas, talvez mesmo até todos os dias.
Cheguei ao hospital, já cansado do sofrimento que as lágrimas na minha cama me deram ao pensar que esta era a vida que eu levava há dois anos. Dois anos não tinham chegado para que me habituasse. Era impossível!
Eu lidava com pacientes em fase terminal, e só Deus e eu sabemos como isto é difícil.
Será que alguém sabe o que é ver o sofrimento todos os dias? Na cara dos utentes? Na cara das pessoas!? Dos familiares? Dos amigos?
Não, apenas nós. Apenas nós que lidamos com estas situações todos os dias.
Mas custa, é algo que custa, mas é o que me faz pensar no “pouco” tempo de vida que temos. Me faz pensar até, muitas vezes, o porquê de tantas merdas no mundo, o porquê de tantas injustiças quando, no final, o destino que todos tempos é o mesmo. E, ao ostentar a minha bata ao lado dessas pessoas, aquelas pessoas que nem poderão ter a oportunidade de ver novamente o pôr-do-sol, que penso nas pessoas que eu amo. Em como elas são importantes para mim. É quando penso nos meus sonhos, naqueles que realizei, naqueles que ainda quero realizar… É quando penso na vida que sonhei ter, na família que desejei ter, nos sítios que queria ver, que vejo o sofrimento nos olhos daquelas pessoas.
O rapaz de vinte cinco anos acamado olhou para o seu irmão. O irmão tinha apenas sete anos.
– Mano, tens que melhorar. Tenho um jogo bué fixe para te mostrar. – Ele sorriu, sorriu para o irmão, para aquele que ele amava.
– E vou ver, puto. Tens que me mostrar quando eu chegar a casa. – O seu irmão não sabia que tal não seria mais possível.
Os pais saíram do quarto, não conseguindo ter forças para ouvirem as últimas palavras trocadas por entre aqueles irmãos… pelos seus filhos.
– Quando voltas?
Eu continuava ali, bem como dois colegas meus, ouvindo atentamente aquilo que diziam entre eles, estando preparados para agir se alguma coisa se passasse com o avanço da doença.
– Puto, anda cá.
O irmão aproximou-se. Deixava o medo transparecer dos seus olhos.
– Sabes…, chega a uma altura na vida em que mais ninguém nos pode seguir. E essa altura para mim chegou. Chegou a altura em que não me vais mais poder seguir. A altura em que não podes ir para onde eu vou…
– Mas porquê? Por que não posso ir contigo, mano?
– Porque o sítio para onde vou é muito muito longe daqui. – A voz tremia-lhe, e cada palavra era já um peso para ele.
– E não te posso ir visitar?
O irmão mais velho não era de ferro. A sua lágrima traiu-o.
– Sim, podes… e vais. – Ele abraçou o irmão num abraço desajeitado pelos fios das máquinas. – Um dia. Um dia vamos encontrar-nos. Prometo-te!
– Vais morrer, não vais?
O irmão mais novo tinha atraiçoado o mais velho. Este não deixou de assentir.
O meu coração tinha começado a bater a mil. Podia jurar que me ia fugir do peito.
– Sim – acabou por dizer, rompendo o silêncio.
O corpo mais pequeno mexeu-se. O seu irmão mais novo chorava. Ele conseguia já compreender o que aquilo significa. Ele sabia que aquela era a altura que o irmão falara anteriormente. Era a altura em que ele não poderia mais seguir o seu irmão. E isso era algo que me entristecia profundamente. Ele nunca poderia ver o seu irmão mais novo casar, entrar no secundário, concluir a universidade, conhecer a sua primeira namorada, ver os seus filhos… nada. Ele nunca iria poder ver isso. E isso era algo que só de pensar fazia doer o meu âmago.
O rapazito parou de chorar e sorriu para o irmão.
– Vais olhar por mim? Vais ajudar-me? – As lágrimas transbordavam dos seus olhos.
O irmão mais velho assentiu, dando um beijo na testa do seu mais pequeno.
– Sempre! Esteja eu onde estiver, olharei sempre por ti.
Depois de lágrimas…, depois de sorrisos e de promessas que, quem sabe, serem possíveis de cumprir, o irmão mais novo abandonou a sala acompanhado pelos meus outros colegas que tentavam controlar aquilo que as suas emoções impunham em fazer.
– Obrigado por este momento – disse-me o jovem rapaz.
– Estamos cá para isso – foi a melhor coisa que consegui arranjar para dizer depois do que acabara de acontecer. Também eu estava tomado pelas minhas emoções. – Como te estás a sentir? – Acabei por perguntar. Afinal de contas há um ano e meio que ali estava connosco.
– Estou bem… especialmente depois deste momento. Obrigado pelo que fizeram – sorriu, ajeitando-se na cama. – E, doutor… Eu sinto que está perto…
Tinha que confessar que também eu já tinha desconfiado daquilo que o rapaz dizia.
– Por que dizes isso?
– Não sei – pensou por um bocado. – Sinto-me mais tranquilo. Sem medo, sinto-me bem e sinto que estou pronto para partir. Para ir para onde devo ir. Sinto que o meu lugar já não é aqui.
Se aquilo que ele me dizia era verdade, então sim, ele estaria à beira das portas da morte. Quando se aproximava a hora final, o nosso cérebro libertava um químico que nos fazia sentir bem, que nos fazia sentir tranquilos.
– Doutor – uma enfermeira apareceu à porta do quarto. – Precisamos de si só por dois minutos.
Fiz-lhe sinal com a cabeça, dizendo que não tardaria em ir.
– Ficas bem? Sentes algo mais?
– Eu vou morrer, não vou? Quer dizer… – gaguejou. -… Está perto, não está?
Hesitei.
Ele percebeu.
– Se o seu silêncio for a resposta, tomo então isso como um sim…
 
A verdade é que os minutos passaram em mais uma história.
Um dos nossos colegas médicos estava a dizer à sua mãe que muito em breve teria que começar a fazer as despedidas. Que o seu corpo já não aguentava mais. E, para ser franco, já nós víamos que também o seu filho não aguentava mais. Mas sejamos sinceros: qual é o filho que gosta de ver os pais sofrerem? Nenhum. E aquele momento era sem dúvida bastante difícil para o nosso colega.
Pensei nos meus pais. Pensei no tempo que fazia desde a última vez que os vira. Será que eles sabiam que eu os amava? Quer dizer…, será que eles sabiam que, apesar da minha ausência eu os amava incondicionalmente e em que não havia um único dia da minha vida em que não pensasse neles? Será? Será que…
É melhor parar com os “serás”.
Abandonei a sala, depois de ter ajudado a explicar o que a senhora queria saber e que o seu filho não conseguia arranjar forças para verbalizar.
Voltei novamente à saleta onde outrora tinha estado.
Aproximei-me da cama e o que vi foi algo que fez parar o meu coração por momentos. O ar tinha-se tornado mais denso.
O jovem rapaz tinha partido. E tinha-o feito com um sorriso na cara e com lágrimas que agora secavam.
– Foste feliz! E isso apazigua-me.
E, não conseguindo agarrar decerto modo também a minha dor, uma lágrima caiu sobre o corpo inanimado do rapaz.
Iriam sentir a sua falta.
 
Cheguei a casa.
Cheguei a casa e coloquei as chaves no chaveiro olhando para o relógio: os ponteiros mostravam as seis e meia da manha.
Olhei para a planificação que ali tinha: entrava às quatro da tarde. Teria ainda algum tempo para descansar. Ou pelo menos assim pensava.
Meti-me debaixo do chuveiro e deixei que a água caísse sobre mim tentando afastar o cheiro da morte, do sofrimento e da tristeza, tentando que apenas restassem as coisas boas. Aquelas histórias que manteria para mim.
E era assim a minha vida. A minha vida baseava-se nisto. Todos os dias. Todos os dias eu contactava diretamente com estes casos. Sim, com a tristeza, a dor, o sofrimento, ressentimentos e todos os outros vocabulários. Mas também tinha momentos de alegria, de pura felicidade que nos faziam esquecer por instantes todos os problemas.
Por isso aproveitem a vida. Nunca sabem o que o dia de amanhã voz trás. Pode ser uma coisa boa, pode ser uma coisa má. Pode ser algo que nunca pensassem que acontecesse. Nunca sabem quando os Deuses, nos seus jogos, nos pregam uma partida. Ama os que te amam. Aproveita a companhia deles. Sê tu próprio. Faz tudo o que tu queres fazer e sonha. O sonho pode nem sempre se concretizar, é certo, mas vai ser algo só teu. Algo que apenas tu partilhas contigo próprio. E, quem sabe, se um dia esse sonho não se realiza?
Esquece os problemas por momentos. Esquece o que te aflige e corre em direção à felicidade. Que se foda toda a tristeza! Que se foda todo o lixo que muitas vezes temos na nossa vida!
E é isso… Eu posso sofrer. Eu sofri com o que vi hoje, mas, do dia de hoje, fui abençoado por boas energias, e é nessas boas energias que me vou concentrar.
Faz também o mesmo! Ou tenta… pelo menos tentaste, e essa garantia ninguém te a pode tirar… nem a morte.
 

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